A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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Vilém Flusser: uma introdução foi escrito a seis mãos e três línguas. O brasileiro Gustavo Bernardo, o suíço Rainer Guldin e a alemã Anke Finger uniram-se para elaborar uma introdução ao pensamento de Flusser recorrendo ao método flusseriano: escrever-se e reescrever-se em várias línguas.

Os três autores redigiram cada um a sua parte primeiro em inglês, que não é a língua materna de nenhum deles. Depois, Gustavo traduziu-se para o português e traduziu as versões em inglês de Rainer e de Anke para o português; Rainer traduziu-se para o alemão e traduziu a versão em inglês de Gustavo para o alemão; Anke traduziu-se para o alemão e revisou a versão em inglês de Gustavo. 

A edição brasileira foi publicada pela editora Annablume em 2008. A edição alemã foi publicada por Wilhelm Fink Verlag em 2009. A edição norte-americana foi publicada pela University of Minnesotta Press em 2011. Como se vê, a última versão é publicada na língua em que foi escrita pela primeira vez.


UMA PORTA PARA O UNIVERSO DE VILÉM FLUSSER

Rafael Haddock-Lobo

 

Quem foi ou é aluno de Gustavo Bernardo, quem acompanha, ainda que de longe, seu trabalho nestes últimos anos, sabe de seu crescente esforço para sublinhar, no panteão acadêmico brasileiro, o nome do filósofo tcheco Vilém Flusser. Sobre isso, atestam livros seus como A dúvida de Flusser (Globo, 2002), Vilém Flusser no Brasil (Relume Dumará, 2000, com Ricardo Mendes) e o recentemente lançado Vilém Flusser: uma introdução (Annablume, 2008), em co-autoria com Anke Finger e Rainer Guldin.

Aliás, é muito provável que grande parte das pessoas que ouviram falar em Flusser (certa e infelizmente um pequeno número) tenha recebido este nome através de Gustavo. E isso em termos de nosso território. De alguns anos para cá, Gustavo Bernardo também se tornou uma espécie de “embaixador flusseriano” que, com o aval e o reconhecimento de Edith Flusser, viúva do filósofo, também se preocupa em disseminar esta obra (grande parte escrita em português) para além da Terra Brasilis.

Vilém Flusser, judeu nascido em Praga em 1920, vem para o Brasil em 1940 devido à invasão alemã, instalando-se em São Paulo com sua esposa, Edith. Mas é apenas no final dos anos 50 que começa a integrar a comunidade filosófica brasileira, quando se torna professor convidado da Escola Politécnica da USP e passa a colaborar com a Revista Brasileira de Filosofia e com o Suplemento Literário do Estado de São Paulo, além de assinar uma coluna diária na Folha de São Paulo. Em 1972, Flusser deixa o Brasil e retorna à Europa, escrevendo e ministrando conferências até a sua morte em 1991.

Devido à complexidade de sua obra, que assume as heranças de filósofos tão distintos como Husserl, Heidegger e Wittgenstein, ao mesmo tempo que em trava um diálogo com Guimarães Rosa, com a fotografia e com a teoria da comunicação, não se pode dizer que o texto flusseriano seja de imediata assimilação. Como no caso de todo grande pensador, os textos de competentes comentadores são sempre bem-vindos para ajudar na travessia que se mostra à frente. Por essa razão, um livro como este que chega em nossas mãos, Vilém Flusser: uma introdução, deve ser celebrado como mais uma porta que se abre.

O livro, uma verdadeira experiência flusseriana, expressa a estranheza de um pensamento ainda novo por seu caráter radicalmente estrangeiro. Isso se mostra na própria história do livro, escrito primeiramente em inglês, que não é a língua materna de nenhum dos três autores. E abrindo mão de seus solos seguros, como fez Flusser, os autores se lançam em uma rede de traduções, em que uns traduzem os textos dos outros. E é assim que estréia em português o livro, depois traduzido para o alemão e para o inglês. Mas o fato é que esta primeira versão em português marca a simpatia de Flusser por nossa língua - o que parece fascinante para alguém que não escrevera nunca em sua língua materna.

Os dois primeiros capítulos do livro são assinados por Anke Finger, professora alemã que atualmente leciona na Universidade de Connecticut e que, junto a Rainer Guldin, dirige o jornal Flusser Studies. No primeiro, para além de uma simples biografia, o objetivo de Anke é o de sanar algumas contradições sobre a vida de Flusser a partir de uma série de entrevistas com a viúva do filósofo. Um caderno de fotos, em grande parte cedidas por Edith Flusser, encerra a parte biográfica do livro e abre espaço para os ensaios, dos quais o primeiro é também assinado por Anke Finger e trata da relação entre este pensamento e os estudos culturais, mostrando como Flusser transitava entre diferentes idiomas, linguagens e áreas do saber.

Os dois capítulos seguintes são escritos por Rainer Guldin, professor de literatura alemã na Suíça. Em "Tradução e escrita multilingüística", Guldin trata de um dos temas de maior importância no cenário filosófico atual: tema não muito levado a sério pela filosofia, um pensamento da tradução colocaria Flusser ao lado de poucos, como Walter Benjamin e Jacques Derrida. No capítulo seguinte, Guldin chama atenção para outro grande braço da filosofia de Flusser: o diálogo com a inovação mediática na teoria da comunicação.

Gustavo Bernardo, professor de Letras da UERJ, além de apresentar a obra em nossa língua, escreve os dois últimos textos do livro. O primeiro parece fazer confluir duas das atuais paixões de Gustavo: o pensamento de Flusser e o ceticismo. De acordo com o autor, Flusser representaria uma nova e sofisticada variante do pensamento cético, que não apenas se contentaria em empreender um exercício metodológico da dúvida, mas que, ao contrário de todo racionalismo, buscaria não se ater a respostas e respeitar a dimensão do mistério.

Muito próximo da leitura que Jacques Derrida empreendeu de Kierkegaard, poderíamos dizer que Flusser se situaria numa pequena constelação de filósofos que souberam tremer e, mais ainda, aceitar e respeitar o tremor. E não seria isso também o que uniria o pensamento ao literário? O último capítulo de Vilém Flusser: uma introdução dá a entender que sim. Em "Ciência como ficção", Gustavo Bernardo alude ao estatuto ficcional de todo discurso, seja ele filosófico, literário ou religioso. Como disse Derrida, em sua leitura de Kafka, a lei de todo texto é o seu "como se". Escrevemos sempre como se o que estamos escrevendo fosse a verdade e, nesse sentido, o discurso mais próximo do verdadeiro, ou ao menos do real, seria então aquele que, como o de Flusser, assumisse a precariedade do pensamento frente ao mistério e aceitasse o tremor de apenas se escrever "como se", transitando por entre diversos limites no intuito justamente de desconstruir a fixidez destas fronteiras.

http://www.flusserstudies.net/reviews


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