A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


pálpebra


Pálpebra é o primeiro livro de Gustavo Bernardo e o único de poemas. A publicação, da editora Lidador, de 1975, conta com fotos de Francisco Calmon. A capa é de Sami Mattar. Apresentam-se abaixo todos os poemas do livro.



POÉTICA
 
entre meus dedos
o bico de um seio
 
basta isso

BRASIL
 
quando neva me sinto magro
e de mim escorrem
líquidos e fatos

AMÂNCIO
 
desta roda de antigas gentes
desconheço o centro
a radiação de ausências
 
o movimento
joga à névoa
cirandas cirandinhas
de meu morto

LIMPEZA
 
o crucifixo de madeira
pregaram-no entre os seios de mamãe
 
jorra vinho de minhas pálpebras
ao feitio de lágrimas
das novas
 
o sangue de toda gente
devia ser branco

INFANTE

caio por um poço de pedra
e me crivo na existência
quando sinto em minhas costas
a carícia de suas unhas bem tratadas
                                       bem pintadas

PONTO
 
fotografei a magia

INVOCAÇÃO
 
um rock leve outro pesado
uma prancha de surf
a onda a água a queda
a letra inventa o mundo da paz
o fumo sacando o lance

ó deus
que geração desesperada
o desespero da risada

CHRISTINA
 
cego
engulo sua inexistente língua rubra
castro-me
ao som de bach
alegria dos homens

MERGULHO
 
groselha num lago antigo
o sol é um losango
ana caiu para o poço que não queria
e o palco se abre para a anti-vida

MOTIVAÇÃO
 
agrido as teclas da olivetti
para contrabalançar esta covardia
                                            minha
escrevo para compensar a seca vida
violento a branca folha para transferir
                                                      nela
os beijos perdidos nas costelas
das mulheres da minha imaginação
                                              feérica

SÉCULO
 
a mosca entra
pela boca dos mudinhos
enquanto se estatelam
glúteos no meio-fio

OFÍCIO
 
fogo brando
na história do brasil
analisem com calma
os sintagmas de nossa língua

meu aluno se feriu
na ponta da conotação
e em carne viva
espelhada a revolução
ficou

SÓ NESTA PÁGINA

como uma banda antiga
na quarta-feira em retreta
o poeta pede passagem
para dizer de seu amor
por marília

POLÍTICA

caí nos pelos de um braço teu
e me anulei pela vontade
de ser crua
tentei pôr o bico de um seio
em carne viva
feri-me quando tudo não doeu
até por final
me descobrir ridícula

aprendi a lição
pedi desculpas
me confessei a papai noel
o alívio tomou-me em um nó cego

milagrosamente
reconstruí minha virgindade
com água benta
e um beijinho de boa noite

NEGATIVA

sintaxe tradicional versus transformacional
a monografia se rascunha
tem de se preparar aulas pra segunda
estudar historiografia da linguística
perceber o vetor do determinante sintagmático

deborah me espera na chuva

APROXIMANDO

avioneta celeste
carregadinha de símbolos
busque na chuva da véspera
a razão desta gosma no lençol

MÓDULO MIL

nas veias de iracema corre ácido lisérgico
o olho vítreo se fez lente divergente
espalhando a coca em cacos
pela mucosa nasal a criar americas

MULTINACIONAL

lua cheia
bosque iluminado
cadáveres nos galhos

quarto minguante
caatinga encandescida
cadáveres nos cactos

AUSÊNCIA

escaldaram o dorso lanhado de uma filha
cortaram a veia o pulso
                                     em ideia
nossa nega morreu crua
malucos cantam os morcegos
                                               de dia
e a minha mente a tudo abriga

cada um não é senão
um senão na fadiga cósmica

DEPOIS

quando eu morrer
à minha cabeceira estará
a namorada que não tive
coberta de luz e borrada
pelo vestido e por nada?

também não

COMUNIDADE

a primeira cidade tem uma série de ruas
na série de ruas existe uma principal
na rua principal acontece uma curva
no centro da curva aparece um poste
e a luz do poste alumia o poste mesmo

ELES

beijavam as bocas das mães
e se largavam pelo fio das lâminas
abraçando gengivas laceradas
como o único meio de alcançar
o envoltório das invenções alheias

TEMPO

escritório
o canto do galo branco afasta as trevas
faz-se a luz no eucatex

desfaz-se
a luz, meu bem, inexiste
se não atinge olhos e
se não levanta as pálpebras

QUEM

se botou de cócoras
na várzea do parnaíba
carcou a barata-do-rio nos dedos
assou a bicha em gravetos secos
daquela terra lá dele
mastigou com seu prazer amargo
perna por perna
asa por asa
(e todo o sumo)

o grito silva
queria-o espalhado
nas artérias da cultura

e aonde o ventre
fica

SÃO JORGE REVISITADO

o dragão branegro da poesia
cospe fogo ferros quentes
e queima a escrivaninha
máquinas de escreveres

engole a vida
a digestão cria outra massa
outro mundo
cospe-o transformado em fogo
                                          ferros quentes

a chama mata os burocratas
tecnocratas e tempocratas
a chama reexiste a existência
realizando nossamente
estes reais incompletos

tiros na cara
e mesmo assim
damos nós vivas
ao dragão branegro da poesia

estes vivas são engasgados
por regras e lágrimas
com gosto de saliva preta
de feridas abertas há muito
mas são vivas
ora bolas



e-mail: gustavobernardokrause@gmail.com