A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Machado e a escravidão


Machado de Assis e a Escravidão foi publicado pela editora Annablume em 2010, contendo as conferências do Colóquio de mesmo nome realizado em 2008 em Hamburgo, na Alemanha.


APRESENTAÇÃO DOS ORGANIZADORES

Gustavo Bernardo
Joachim Michael
Markus Schäffauer

 

O Ano de Machado em 2008 serviu de estímulo para uma série de eventos e publicações dedicados à vida e à obra de Machado de Assis. O presente livro é fruto de um colóquio que fez parte desse ciclo de comemorações. Esse colóquio ocorreu de 3 a 4 de dezembro de 2008 na Universidade de Hamburg, na Alemanha; a ele se seguiu um workshop, com todos os participantes, na ilha de Helgoland, no Mar do Norte. Seu propósito, no entanto, foi o de aproveitar as celebrações do grande autor para discutir um aspecto da sua obra ao mesmo tempo controvertido e pouco estudado. Os ensaios aqui reunidos aprofundam o tema “Machado de Assis e a escravidão”, analisando-o criticamente.

Essa questão certamente não é evidente, já que a escravidão aparece somente de forma discreta nos romances do autor. Não obstante, 100 anos depois da morte de Machado parece ter chegado o momento de conjugar duas visões amplamente reconhecidas: (a) o século XIX no Brasil é um século marcado pelo problema da escravidão; (b) Machado de Assis era um dos críticos sociais mais perspicazes daquele tempo. O autor representava ironicamente a falta de escrúpulos reinante na sociedade novecentista através do fracasso de uma figura como, por exemplo, a do Rubião do romance Quincas Borba. Rubião, rico, debutante e ingênuo, é literalmente espoliado pela alta sociedade e por aqueles que ambicionam pertencer a ela. Machado fazia a caricatura do darwinismo social e da apologia da lei do mais forte, como característica universal da humanidade e princípio constitutivo da sociedade, mostrando-a como a filosofia louca de um filósofo louco, Quincas Borba, chamada “Humanitismo”. Se sabia como o oportunismo e a exploração estruturavam as relações sociais no Império, não seria plausível que Machado tivesse fechado os olhos para a violência extrema da reificação do homem pelo homem na escravidão.

Já nos anos setenta, Roberto Schwarz, analisando a obra de Machado de Assis, demonstrou que o modo de produção da escravidão determina não só as relações sociais da sociedade novecentista senão também o seu mundo das ideias. Na base desse materialismo histórico, Schwarz analisa, nos romances machadianos, as dependências sociais regidas pelo patriarcalismo escravagista e as atitudes intelectuais que essas dependências produzem. John Gledson, por sua vez, leu os romances como historiografias contemporâneas escritas entre as linhas. Ele reconhece nos textos de Machado representações das grandes crises políticas da segunda metade do século XIX.

Tanto Schwarz como Gledson aproximam-se do problema da escravidão na obra de Machado, mas não chegam a explicitar a maneira como o autor aborda a escravidão nem as estratégias narrativas implicadas. É certo que a escravidão aparece – salvo alguns contos exemplares – de forma indireta ou marginal nos escritos de Machado. Mas a constância desses episódios envolvendo escravos na obra de Machado indica que não se trata somente de um ingrediente a mais para dar realismo ao retrato do cenário urbano da época. A mera insistência no fato de Machado ter sido mulato, porém, contribui pouco para esclarecer a questão. Esse fato biográfico não permite reivindicar qualquer atitude literária, como se o suposto silêncio concernente à escravidão «embranquecesse» Machado (segundo uns) ou o «alienasse» (conforme outros).

Os estudos reunidos no presente volume questionam tais estereótipos. Eles encontram fundamento em trabalhos recentes como os de Sidney Chalhoub; ele comprovou que Machado, em sua função de alto funcionário do Ministério da Agricultura, tratava frequentemente de disputas jurídicas vinculadas à Lei do Ventre Livre. O historiador mostra que Machado nessas ocasiões se empenhava sistematicamente na libertação dos escravos. De especial importância é a antologia Machado de Assis afro-descendente, organizada por Eduardo de Assis Duarte. Pela primeira vez se reúnem poesias, crônicas, críticas, contos e trechos de romances de Machado que têm como tema a escravidão. A antologia é a prova mais patente da importância que o tema tinha para o escritor. Ao mesmo tempo, também são importantes os estudos recentes sobre a própria escravidão, suas contradições e múltiplas facetas. Eles revelam a complexidade da escravidão como um fenômeno singular que desenvolve uma série de dinâmicas próprias e imprevistas que não se reduzem a ser simples expressão dos modos de produção de uma determinada época.

Os artigos aqui reunidos abordam a relação da obra de Machado com a escravidão de diversas maneiras. Eles passam por uma indagação das origens da escravidão nas Américas e pelo suposto embranquecimento ideológico do autor, culminando no seu encarceramento na categoria do realismo. Eles passam, ainda, pela biografia afro-descendente do escritor e as condições de sua inserção no campo literário da época. Finalmente, os trabalhos dividem-se por analisar as maneiras como Machado escreve sobre a escravidão em contos e em romances. Enquanto que a escravidão é o tema central em contos como “Pai contra mãe”, “Mariana”, “Virginius” e outros, nos romances, ela, como já se frisou, somente aparece em episódios aparentemente marginais e secundários. Isto significa que, mesmo que alguns contos sejam claras manifestações anti-escravagistas literárias, o exame de como Machado problematiza a escravidão em sua obra requer uma reflexão sobre as estratégias narrativas empregadas. Tal reflexão impõe-se tendo em conta o modo dissimulado, pode-se dizer mesmo não-confiável, com que as histórias machadianas são narradas. Ou seja, ainda que cada narrador não atribua um lugar central à escravidão em sua história, isto não quer dizer que a esta – marginalizada por um narrador muitas vezes em primeira pessoa – não corresponda uma importância particular no texto.

Há de se suspeitar, por exemplo, que um eu-narrador senhorial como Brás Cubas persiga intenções próprias que consistem justamente em ocultar tanto o escândalo da exploração escravagista como o (gosto pelo) poder partriarcal absoluto. O exemplo mostra que, se a maioria dos textos de Machado não atacam de frente a escravatura, isto não significa necessariamente que eles não estejam, de fato, criticando a escravatura. Pelo contrário, simulando a visão de mundo patriarcal, eles podem estar desvelando a maneira como o próprio escravagismo opera, por meio do silenciamento e da exclusão, sua brutalidade contra os escravos e os afro-descendentes. O que está em questão, aqui, é que a obra de Machado de Assis seja regida pelo que Eduardo de Assis Duarte chama “a poética da dissimulação”. Trata-se de uma desconstrução do discurso patriarcal e escravocrata através de estratégias subversivas que acabam por revelar não somente a violência escravagista senão também o anulamento discursivo dessa violência, que resulta ainda mais violenta.

Inspirados por Machado de Assis, por seu pensamento e pela língua portuguesa que estudamos, realizamos o colóquio em Hamburg, na Alemanha, dando tempos iguais para doutores, doutorandos e graduandos darem seus recados, ministrarem suas conferências. A qualidade dos debates consequentes e, depois, dos textos resultantes, mostrou o acerto da iniciativa. Na terra de Heine, de quem Machado tanto gostava, a maior parte das conferências foi ministrada em português. Professores e alunos alemães, em deferência máxima à língua de Machado de Assis, não apenas proferiram suas conferências em português como as redigiram em português. Com o apoio inestimável da Universidade de Hamburg, quatro professores viajaram especialmente para participarem dos debates não apenas sobre Machado, mas sobre o tema da escravidão na obra de Machado, tema que não frequentou como devia as comemorações do centenário de morte do escritor, em 2008.

Agora, reúnem-se os três professores abaixo-assinados para, da Alemanha e do Brasil, organizarmos os anais desse colóquio, de modo a divulgar essa discussão tão importante para público bem mais amplo. Em co-edição internacional inédita, reunindo universidades e fundações de continentes diferentes, publica-se o volume na língua em que se ouviu a maioria das conferências, língua esta que foi, afinal, a de Joaquim Maria Machado de Assis.

 Hamburg / Rio de Janeiro, março de 2010


Sumário:



MEMÓRIAS PÓSTUMAS DA ESCRAVIDÃO

Eduardo de Assis Duarte

 

OS INÍCIOS DA ECONOMIA ESCRAVOCRATA NAS AMÉRICAS

Peter Martin

 

MACHADO DE ASSIS E O SÉCULO NEGRO

Joachim Michael

 

REALISMO, CETICISMO E ESCRAVIDÃO: O CASO DE MACHADO DE ASSIS

Gustavo Bernardo

 

A DESCONSTRUÇÃO DE ESTEREÓTIPOS SOBRE MACHADO DE ASSIS: A QUESTÃO DA ESCRAVIDÃO

Eduardo de Faria Coutinho

 

TOMANDO LIBERDADES: O ESCRAVO “FORA DO LUGAR”

Ingrid Hapke

 

AMOR E MORTE: UMA COMPARAÇÃO DOS CONTOS "PAI CONTRA MÃE" E "MARIANA"

Leda Marana Bim

 

A BORBOLETA PRETA E OS OLHOS DE RESSACA

Markus Klaus Schäffauer

 

ESCRAVIDÃO E ABOLIÇÃO EM MEMORIAL DE AIRES E "O CASO DA VARA"

Dennis Tauscher

 

O ESCRAVO E O PROTEGIDO: PERCEPÇÃO DO TRABALHO SERVIL EM “VIRGINIUS”

Natascha Machado Krech

 

A VIDA LITERÁRIA DE MACHADO DE ASSIS E O NEGRO EM SEU TEMPO

Adauri Bastos