A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


filosofia da ficção


A filosofia da ficção de Vilém Flusser foi publicado pela editora Annablume em 2011, contendo as conferências do Colóquio de mesmo nome realizado em 2010 na UERJ, no Rio de Janeiro, e na Praia de Dois Rios, na Ilha Grande.


 APRESENTAÇÃO:

Daniel Santos

 

Nem todos sabem conviver, mesmo em conflito, com a questão da tradição e dos cânones. Em geral, a imagem de uma personalidade é pintada com tantas e intensas cores que se torna difícil a simples tentativa de distinguir a obra de alguém de tudo o que foi dito em torno desse alguém. Talvez não se tenha que fazer distinção nenhuma, mas aí a questão se impõe de maneira mais grosseira: “se tanto já se disse sobre fulano, o que tu tens a dizer ainda, cara pálida?”. E, diante da impossibilidade de resposta imediata, a impaciência da juventude costuma fugir por alguns buracos convenientes, seja endossando o velho mito da “genialidade” de tal personalidade, seja, em sentido contrário, cuspindo na cara desse mesmo mito, ao afirmar sua sujeição a valores logocêntricos que nada tenham a ver com nosso bairrismo carioca. Digo tudo isso pois foi exatamente de dentro de um conflito como esse que se deu meu primeiro contato com Vilém Flusser. E posso dizer que ocorreu algo semelhante com meus colegas que participaram do simpósio “Flusser in Rio”.

De fato, eu ainda não aprendi, ou por falta de leituras ou por puro preconceito, como exumar da aura de qualquer autor o seu devido núcleo-duro. Por outro lado, aprendi que, em geral, eu costumava impor essa questão de maneira completamente errada, justamente porque Vilém Flusser está muito longe de ser um autor canônico, e isso punha por terra qualquer desconfiança que eu poderia alimentar em relação à sua suposta aura. A pergunta se redefinia em outros termos: afinal, o que dizer de um filósofo quase desconhecido do conjunto da Filosofia que, no entanto, escreveu uma das filosofias mais desafiadoras do século passado? O próprio Flusser talvez me respondesse que a chave para essa pergunta continha-se na sua vivência como bodenlos, sem fundamento, que o libertava e o condenava a uma constante imigração pelas mais variadas paragens, dotando-o de uma visão caleidoscópica da realidade. E diante dessa vivência, a questão do cânone aparecia tão menor e desimportante, que sua grosseria máxima estava em se apresentar como porta de entrada para aquilo que se pretende chamar de história do pensamento, enquanto a figura singular de Flusser fugia pela porta dos fundos desse edifício em implosão.

A minha sensação de participar do “Flusser in Rio” foi de extrema produtividade. Por um lado, eu achava que estava diante de um esforço de tornar a obra de Flusser mais conhecida para um público mais amplo; e de fato, esse foi o espírito que moveu todas as pessoas envolvidas no evento e permitiu meu primeiro contato com a obra desse pensador. Por outro lado, eu tinha a convicção de que esse mesmo esforço ainda não era suficiente para um mergulho mais pleno na obra de Flusser, o que demandava um amadurecimento que só o tempo e a reflexão poderiam dar. Em outras palavras, os frutos do “Flusser in Rio” não foram colhidos durante o curto período de duração do evento, de 6 a 14 de agosto de 2010. Para ser sincero, todo evento acadêmico que procure ser honesto com sua própria proposta deve se admitir não como clímax de algum debate específico, mas como desencadeador de reações diversas, muitas das quais nem sequer virão à tona para atestar a importância daquele evento. De acordo com a metáfora que mais vingou entre nós, entendemos a obra de Flusser como um rio, sempre em movimento a nos arrastar por suas correntezas, mas cujo caudal também se engrossa com nossa presença, fazendo com que o rio transborde, às vezes, de maneira insuspeitada.

O simpósio “Flusser in Rio” reuniu estudiosos de diversas áreas para dialogar sobre a filosofia da ficção do pensador tcheco brasileiro. Realizou-se no campus da UERJ no Maracanã, com presença significativa de alunos de graduação e pós-graduação da mesma universidade, seguido por um workshop com os conferencistas no campus avançado da UERJ na Ilha Grande, o CEADS (Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável). No dia 6 houve uma pequena etapa de pré-simpósio, com a defesa de dissertação de Lucas Matos: “Oásis no deserto da referencialidade: Arnaldo Antunes e Vilém Flusser”, e com o lançamento tanto do livro Machado de Assis und die Sklaverei – Machado de Assis e a escravidão, contendo as conferências do colóquio realizado na Universität Hamburg, na Alemanha, em 2008, quanto do Caderno dos monitores, contendo os ensaios que escrevemos quando nos preparávamos academicamente para o simpósio.

Nos dias 9 e 10, no Teatro Noel Rosa da UERJ, dezesseis conferências abordaram diversas questões pertinentes à obra de Flusser. No primeiro dia, José Castello estreia com o tema “A poesia do pensamento”, no qual pretendeu definir a poesia como uma espécie de dança em torno da realidade, com a função de se referir ao real apenas de maneira subjetiva e parcial. Segundo o conferencista, essa qualidade que define a poesia define também a filosofia de Flusser, cujo diferencial em relação a outras filosofias estaria em ser uma “poesia do pensamento”. Norval Baitello Jr apresentou a conferência “As metáforas do espaço e os vazios midiáticos pensados por Flusser”, refletindo sobre os aparelhos midiáticos como elos colocados no lugar da falta de sentido da vida humana. Para Flusser, a função desses aparelhos seria justamente nos fazer esquecer essa falta de sentido, nos empurrando para a tessitura de vínculos comunicativos, que em nossa sociedade tendem a se tornar cada vez mais complexos e abstratos.

Markus Schäffauer foi “Além da ficção” ao falar sobre o caráter flusseriano de ruptura da dicotomia ficção-realidade através de um discurso instalado entre o ficcional universo das imagens técnicas e o que estiver para além desse universo. Joachim Michael nos trouxe o tema “Flusser apocalíptico e a (pós-) história”, refletindo sobre a insistência de Flusser em pensar o mundo presente como crise dos vários fundamentos que estabeleceram o Ocidente como grande sociedade histórica. Flusser toma o discurso histórico para falar de sua própria superação e para pensar sobre o mundo que vem depois da história, ou o mundo que está fora da história.

Rafael Cardoso apresentou a conferência “O exílio de Flusser e o refúgio da linguagem”, trazendo ao público a dimensão existencial que o pensador atribuía à linguagem. Para Flusser as línguas tinham, antes de tudo, uma base ontológica capaz de filtrar uma maneira própria de enquadrar a realidade. A língua é o território do real, segundo Flusser. E, nesse sentido, as questões do poliglotismo e da tradução adquirem nova profundidade existencial, ao problematizarem a circulação entre várias realidades. Luciana Hidalgo tratou o tema “Autobiografia de um ‘eu’ plural”, a pensar a obra Bodenlos não apenas como história de uma vida contada de um ponto de vista simplesmente egocêntrico, mas como história coletiva, de um modo de pensar e de ser, que põe em foco mais os diálogos que Flusser teve em vida do que seus aspectos puramente biográficos.

Florence Haret e Paulo de Barros Carvalho trouxeram a filosofia da linguagem de Flusser para o âmbito do Direito, reforçando o caráter interdisciplinar essencial a essa mesma filosofia. Ela apresentou a conferência “Traduções imperfeitas entre realidade social e realidade jurídica: tudo é uma questão de provas!”, falando sobre o caráter representativo da linguagem que tanto traduz a realidade social para as representações da realidade jurídica quanto cria novas representações que abranjam de maneira mais ampla a realidade social. Ele apresentou a conferência “O legislador como poeta”, pensando a figura do legislador como criador e divulgador de realidade jurídica, sempre em diálogo com outras instâncias de realidade pertinentes ao direito, buscando traduzi-las para seu próprio discurso a fim de reconstruí-lo segundo essas novas traduções.

No segundo dia, Maurício Dwek e Chico Toledo discutiram na conferência “Caixa Preta: um documentário sobre Vilém Flusser” a trajetória e os desafios de realização desse documentário, trazendo à tona uma série de questões teóricas e práticas que surgiram do esforço de trabalhar com um projeto audiovisual que refletisse o legado de Flusser. Rainer Guldin apresentou o tema: “Writing philosophy: Vilém Flusser’s textual strategies”, no qual discutiu as estratégias retóricas de que o filósofo utilizava-se para circular entre diversas áreas do conhecimento e entre línguas, de um ponto de vista argumentativo sempre irônico que desafiava seus leitores a enxergar o caráter artificial da linguagem e sua dimensão dialógica.

Anke Finger nos apresentou a conferência: “Science, Fiction, and Interart Literature: writing the Technoimage”, em que se valeu das observações teóricas de Flusser sobre a escrita e as novas mídias para enquadrar recentes produções narrativas multimídias como manifestações da possibilidade de engajamento dialógico, ideia que aparece tantas vezes nas obras mais conhecidas do filósofo. Rodrigo Duarte, em sua conferência “Vampyroteuthis Infernalis como alegoria pós-histórica” tratou da fábula flusseriana do Vampyrotheuthis, que pode ser comparada com aquilo que Flusser entendia como pós-história. A fábula seria uma metáfora da própria condição humana num mundo que superou a história, cujas características já poderiam ser entrevistas em nossa atualidade.

Eva Batlickova apresentou a conferência “Poeticamente vive o filósofo”, a falar de maneira mais ampla daquela qualidade da linguagem que Flusser chamava de “poética”, justamente a responsável pelo poder criativo de realidades humanas. Como Flusser argumenta na obra Língua e Realidade, a filosofia se cultiva naquela qualidade linguística chamada “conversação”, mas respira criatividade somente em constante contato com a qualidade “poética” da linguagem. Para Eva, a obra de Flusser reflete esse constante contato entre “conversação” e “poesia”. Cláudio Castro Fº trouxe o tema: “Modernidade e estética fenomenológica em Vilém Flusser”, em que falou sobre como Flusser entende a possibilidade de arte dentro do contexto de uma pós-história, ao redefinir os termos com que a própria crítica costuma definir a arte. Para Flusser, seria necessário demarcar a noção de uma “arte em crise” a fim de superá-la, pensando em como a arte numa pós-história poderia reaver a sua essência como técnica.

Dirk Hennrich nos trouxe a conferência “Ficção e loucura em Fernando Pessoa e Vilém Flusser”, comentando como as obras de Pessoa e Flusser têm em comum o fato de circularem em territórios de tudo quanto foge da norma, sob o risco de receberem o crivo de loucura. E, para encerrar o ciclo de conferências, Gustavo Bernardo leu o seu conto “O Homem-Rio”, reforçando a metáfora da vida como rio, e como esse rio da vida de Flusser foi tão intenso, irreversível e arrebatador a ponto de desembocar nessa obra única, através da qual rememoramos o seu nome.

A etapa de workshop do “Flusser in Rio”, entre os dias 11 e 14, ocorreu, como já disse, no campus avançado da UERJ na Ilha Grande, o CEADS, localizado na praia dos Dois Rios. Foi uma excelente oportunidade para nos instalarmos em meio à natureza exuberante do local e acirrarmos o debate em torno dos assuntos flusserianos. Entre outras coisas, organizamos mesas redondas que levaram para frente a discussão de vários temas levantados durante o simpósio. Conversamos muito acerca dos desafios do projeto dos nossos cineastas Maurício e Chico. Realizamos leituras e aprofundamento das questões tratadas nas conferências. Os nossos monitores apresentaram seus textos que foram publicados no Caderno Flusseriano, um dos lançamentos do simpósio. Houve discussões acerca dos futuros lançamentos da obra de Flusser pela editora Annablume, inclusive acerca do livro a ser lançado em 2011, com as conferências do simpósio. Assistimos a vídeos de entrevistas com Flusser, que davam uma dimensão palpável da potência intelectual que ele encarnava.

Como vinha dizendo, a minha sensação de produtividade em relação ao evento foi reforçada quando tomei a consciência de aquilo tudo era como se preenchesse para mim a estrutura de um bildungsroman. No entanto, não estávamos limitados pelas paredes opressoras de um claustro nem submetidos à rotina violenta de um internato. Nosso limite era o céu da Ilha Grande, perfeitamente azul durante aqueles dias, e os morros circundantes cobertos de uma mata atlântica quase intocada. Em sua obra Fenomenologia do Brasileiro, em passagem que descreve a relação entre homem e natureza brasileiros, Flusser comenta sobre esse tipo de ambiente como exceção, contraposto à monotonia geral do resto da paisagem em território do Brasil. Mesmo que não concordássemos com ele nesses termos, estávamos de acordo com o fato de que nos plantamos naquele lugar como exceção, diante de uma experiência que não se repetiria da mesma maneira.

Não se repetiu deveras, mas deixou lembranças diversas. Particularmente, voltei para casa com a vontade irresistível de devorar a obra inteira de Flusser, em relação à qual eu passei a alimentar uma consciência de sua amplitude e profundidade. Para além disso, essa mesma obra me impunha uma postura política diferenciada, contida em sua natureza dialógica. Ela não me enquadrava a priori em nenhuma determinação, nem me dizia o que fazer em relação a minha origem. Pelo contrário, me mostrava o quanto a realidade podia ser multifacetada, e me propunha a participar ativamente de sua construção. A leitura de Flusser não me deixa burro, como fico burro diante da questão do cânone, ou diante da necessidade de engajamento numa história que não me ensinaram na escola. Ler Flusser e discutir sobre ele se tornou uma forma de reconhecer e respeitar a possibilidade de um “outro”, e dialogar com ele, a fim de me tornar “eu” mesmo nesse processo.

Nem todos os eventos acadêmicos podem ser como foi o “Flusser in Rio”, o que apenas depõe contra eles. Cada aluno universitário deveria ter a chance de, pelo menos uma vez durante a graduação, ser confrontado consigo mesmo diante da pergunta sobre o que o levou a escolher aquele curso ou aquela profissão, e deveria ter a possibilidade de responder a essa questão com o mínimo de dignidade. Essa pergunta me foi feita durante o “Flusser in Rio”, e eu ainda estou vivendo a resposta que eu dei. Ainda em processo, pois não se esgota num só mergulho a torrente impetuosa do rio que Vilém Flusser é. O mesmo rio que também leva a outros portos, novas leituras e experiências, as quais iluminam uma maneira mais plural e confrontante de enxergar a realidade.