A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


pindorama


O conto "Os filhos de Pindorama" foi lido no encontro entre a seleção de futebol de escritores da Alemanha, chamada Autonama, e a seleção de futebol de escritores do Brasil, chamada Pindorama, no SESC-SP em 7 de junho de 2014. O conto foi publicado pelo Goethe Institut de São Paulo em 2014 na brochura Dribles literários: Brasil e Alemanha.


OS FILHOS DE PINDORAMA
Gustavo Bernardo

 
 

Sob a sombra das palmeiras, os meus filhos e as minhas filhas jogam bola. A bola é de meia. Eu roubei as meias dos homens do barco grande para fazer aquela bola, enchendo-a de mato e areia e costurando tudo com fibras de cânhamo.

Roubar as meias é perigoso, se as armas deles são grandes e brilhantes. No entanto, mostra-se necessário. Pajé me diz que os homens do barco grande vêm para roubar tudo da gente, da terra à alma. Por isso, eu devo roubar o que puder deles, por menor e desimportante que seja, para equilibrar um pouco a história. É o que pajé me diz.

A bola de meia e mato e areia tira um pouquinho da alma desses homens. Por um instante despe seus pés e os força a tocar o nosso chão. Com essa bola de meia e mato e areia, ainda posso ensinar as minhas crianças a lutarem contra adversários tão poderosos.

Como as armas, eles mesmos brilham ao sol, por causa da pele branca. Movimentam-se de modo estranhamente uniforme, braço esquerdo perna direita, braço direito perna esquerda, de novo, de novo, de novo. Eles não parecem gente. Antes, seriam fantasmas de metal e couro. Ou talvez insetos predadores gigantes. Ou talvez, ainda, quase-deuses. Que não respeitam homens, mulheres, muito menos crianças. Que comem a gente no jantar, se gostarem do nosso sabor.

Não resta dúvida de que eles não vieram para conhecer, conversar ou amar, mas sim para conquistar, ensinar e violar. Não resta dúvida de que eles têm armas e poderes e organização que nós não temos. Não resta dúvida de que morreremos muitos: pelas armas que brilham, pelas palavras que insinuam, pelas cruzes que angustiam.

Não resta dúvida, igualmente, de que resistiremos desde agora, da geração das minhas crianças à geração das crianças das minhas crianças e depois, muito depois, até bem longe no tempo. Resistiremos com nossas armas de madeira, com nossas palavras de rio, com nossas divindades de nuvens.

A resistência começa com a bola de meia e mato e areia. Os meus meninos e as minhas meninas jogam com ela entre as árvores e entre as pernas deles. As minhas crianças aprendem a correr, a fugir e a atacar quando menos se espera. Elas aprendem a desorganizar e confundir os fantasmas, insetos ou quase-deuses, lá o que sejam estes seres brancos que brilham.

Os meus filhos e as minhas filhas aprendem a fazerem tudo isso rindo e chorando ao mesmo tempo, mas chorando nas vitórias e rindo nas derrotas. Só assim a nossa alma sobrevive de algum modo, mesmo que obriguem nossos corpos a jogar bola para o deleite deles.