A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


monumento


O conto "O homem-rio" foi publicado em 2011 pela editora Annablume no livro A filosofia da ficção de Vilém Flusser, organizado pelo próprio Gustavo Bernardo.  Esse texto é ao mesmo tempo um conto, um tributo, um artigo e uma conferência. A imagem acima é do Memorial da Sinagoga Pinkas, em Praga.

 O HOMEM-RIO

Gustavo Bernardo

 

Era uma vez um homem-rio chamado Vilém Flusser.

Trata-se de um personagem que se distingue dos demais personagens da literatura. Primeiro, porque Vilém Flusser criou o próprio Vilém Flusser, isto é, Vilém Flusser é o autor de si mesmo. Segundo, porque Vilém Flusser pode morrer.

Vilém começou a criar a si mesmo quando nasceu na cidade de Praga a 12 de maio de 1920, apenas dois anos depois do nascimento do seu país, a Tchecoeslováquia. Ao longo do tempo, ele se esmerou em inventar um personagem com o seu próprio nome, baseado em algumas aventuras e peripécias que de fato aconteceram e outras tantas que ele apenas imaginou, mas às quais dava a mesma importância que às supostamente verdadeiras.

Como as pessoas de carne e osso, porém, Vilém Flusser pode morrer.

Ainda que sobreviva na memória de algumas pessoas queridas, ainda que sobreviva em certas páginas datilografadas em uma velha máquina de escrever, ainda que seu nome se torne imortal graças à sua obra, o corpo e a voz de Vilém Flusser podem morrer.

De fato: ele vai morrer amanhã de manhã cedo.

Como assim? Que dia é hoje?

Vocês parecem tontos, não consultaram a folhinha pela manhã?

Hoje é o dia 26 de novembro de 1991. Na tarde desse dia, nós nos encontramos na rua Siroká número 3, na cidade de Praga, capital da Tchecoeslováquia.

Encontramo-nos não apenas na véspera da morte de Flusser, a qual, entretanto, não sabemos ainda que aconteceu, ou melhor, que acontecerá, como ainda a dois anos do fim do seu país natal, a Tchecoeslováquia, que se dividirá em República Tcheca e Eslováquia, coisa que também não poderíamos saber.

A despeito dessa nossa ignorância, no entanto, percebemos a simetria da vida desse homem: dois anos antes de ele nascer, nascia o seu país; dois anos depois de ele morrer, morrerá o seu país.

Os termômetros marcam zero grau centígrado, como que fazendo ironia com a perseguição que os filósofos fazem ao nada. Faz frio como há 51 anos, quando Vilém fugia da sua cidade natal e daqueles que a haviam violado, jurando nunca mais voltar.

Todavia, Vilém Flusser voltou a Praga, como vemos. Convidaram-no para dar uma palestra sobre o perigo dos nacionalismos. Antes da palestra, ele resolve visitar sozinho o Memorial da Sinagoga Pinkas, na rua Siroká.

Este Memorial é dedicado às oitenta mil vítimas tchecas dos nazistas. Seus nomes, em ordem alfabética, acompanhados das datas de nascimento e morte, preenchem todos os centímetros quadrados das paredes das sala que constitui o Memorial. Chama a atenção que as datas de morte de todas as pessoas aqui homenageadas concentrem-se nos primeiros anos da década de 40 do século XX.

É no centro desta sala que encontramos Vilém. Nós o vemos no exato instante em que ele descobre, no alto e no meio da parede mais larga, o nome do seu pai, o professor Gustav Flusser.

Vilém permanece parado no centro da sala, vendo e revendo o nome do pai na parede, o pai de que o afastaram irremediavelmente há 51 anos, enquanto vê e revê a sua própria vida, cumprindo mais uma vez o eterno retorno do mesmo terror e da mesma esperança.

Vilém sente-se novamente aquele jovem que atravessou a Europa devastada para fugir dos nazistas junto com a namorada, Edith. Nesse momento, percebe que todos os nomes inscritos nas paredes da sala escorrem e fluem por ele como as águas de um e de todos os rios que atravessou e que o atravessaram: o Moldávia, o Tâmisa, o Tietê.

Vilém sente-se inundado pelas águas escuras desses rios e pelo seu próprio nome tão fluido, lembrando-nos que a palavra alemã para “rio” é, justamente, “fluss”. O nome “vilém”, por sua vez, reverbera e se estica todo, como se ventasse sobre as águas do “flusser”.

Talvez por isso este homem-rio não permita que ninguém mergulhe duas vezes nas suas palavras. À moda de Heráclito, ele obriga suas próprias palavras a se deslocarem liquidamente na segunda vez, deixando cada leitor-mergulhador com a sensação de que toda leitura é sempre a primeira.

Inundado pela memória do pai e de todos os que foram mortos junto com ele, Vilém se imagina à beira das águas imaginárias do seu amigo João, a esperar o pai que se mantém na terceira margem do rio, remando dentro de uma pequena canoa. Neste momento ele se pergunta, como se dentro da história de Guimarães Rosa:

... está na hora de tomar o seu lugar, meu pai? O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!...

Sim, está quase na hora, mas ele ainda não sabe disso.

Enquanto olha para o nome do pai nesta terceira margem e homenagem, Vilém lembra-se da longa travessia do oceano naquele navio de luzes apagadas, não se podia alertar os submarinos alemães, ao encontro da terra brasilis. Na terra brasilis ele construiu sua própria fábula: uma fábula em que o homem brasileiro se tornaria o novo homem do ocidente, se mostraria uma versão tupiniquim do “Übermensch” nietzschiano.

Vilém é inundado pela comoção mas não chora. Ele não se tornou tão brasileiro que possa chorar assim. Sua ironia sibilina, aquela que sempre se volta contra ele mesmo, prende a sua lágrima na beira do olho.

A despeito ou por causa mesmo desta lágrima presa no olho, Vilém sorri.

Destarte, como gosta de dizer e escrever, Vilém Flusser sorri.

No gesto de sorrir sai da sala e da sinagoga. Dirige-se para o local da sua conferência de hoje, no Instituto Goethe, novamente à beira do rio Moldávia, as janelas do auditório mostrando a Ponte Carlos. Ao olhar a Ponte Carlos ele voltará a vê-la como a ligação entre as pontas da sua herança e da sua origem.

Vilém não sabe, felizmente, que esta será a última conferência da sua vida, portanto, a sua última travessia. Sempre sorrindo, enquanto caminha neste frio agradável e infantil, lembra-se da frase que tantas vezes disse a seus alunos, algumas vezes a seus colegas, outras vezes a seus amigos: “meu bem, você não entendeu nada”.

Ah, quantos não interpretaram mal essa frase, sentindo-se ofendidos por ela, sem se aperceberem do carinho cúmplice que carrega nas entrelinhas.

A frase marca a contradição ambulante chamada Vilém Flusser, não fosse ele um personagem. O irônico “meu bem, você não entendeu nada” é ao mesmo tempo uma provocação generosa para pensar mais, ou seja, para duvidar mais, que não deixa de se dirigir ao próprio autor da frase: ela significa, ao mesmo tempo, que “eu também ainda não entendi nada”, porque de fato todos nós não sabemos nada: nosso conhecimento é constituído por ficções que apenas nos permitem agir como se soubéssemos.

O espanto perante o nome do pai, no Memorial em homenagem às vítimas tchecas da barbárie, mostra-lhe mais uma vez que ele também ainda não entendeu nada, como, aliás, todos em todo o mundo: Gustav Flusser, seu pai, afinal não morreu, se o lembram dessa maneira monumental, se inscrevem seu nome de professor naquelas paredes.

Nesse momento, Vilém Flusser, o filho, sente-se de novo um inquieto menino praguense, apesar de contar já com 71 anos bem vividos. Ele os viveu em Praga, em Londres, em São Paulo, em Merano, em Robion, e agora vê-se de volta a Praga.

Ora, continuemos, pois – pensa.

Quantas vezes escreveu essa frase ou variantes dela em seus livros: continuemos, pois.

Como Sísifo. Continuemos, pois, com a nossa pedra às costas, e depois continuemos para pegá-la de volta, lá embaixo no vale.

É o que ele faz, se dirigindo feliz para fazer a última conferência da sua vida na cidade em que nasceu a meio de tantas línguas e culturas.

Nessa última conferência vai misturar, de tanta felicidade, sentenças em tcheco, em alemão e mesmo em português, para confusão e alegria da plateia que mal ouvira falar do seu ilustre compatriota expatriado.

No dia seguinte, de manhã, Flusser enfim vai se deparar com Caronte, o barqueiro do rio Aqueronte. Ele tomará a forma de um caminhão branco parado na estrada no meio da neblina, propiciando a travessia do seu último rio – quando só então poderá saber.

Entretanto, esse acontecimento é reservado ao dia de amanhã.

Hoje, nós ainda estamos no dia 26 de novembro de 1991 à hora do crepúsculo, andando com o filósofo, com o escritor, sobretudo com o professor Vilém Flusser pelas ruas de Praga.

Como ele, não sabemos, como o poderíamos, o que acontecerá amanhã.

Continuemos, pois.