A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


lobo ártico


O conto "O lago do lobo" foi publicado em 2010 pela editora Flâneur no livro Escritores escritos, organizado por Victoria Saramago. 

A foto acima, de um lobo do Ártico, foi tirada por Gisele de Carvalho em fevereiro de 2014, em Toronto, no Canadá.

O LAGO DO LOBO

Gustavo Bernardo

 

Es war einmal einer namens Harry, gennant der Steppenwolf.
Er ging auf zwei Beinen, trug Kleider und war ein Mensch,
aber eigentlich war er doch eben ein Steppenwolf.

 

O susto.

O susto frio.

Ele não percebera ainda que eles haviam tomado a cidade.

Até então, estranhava apenas a temperatura tão baixa e a neve.

A neve de outono.

 

A viagem se dá meio a trabalho, meio a passeio. Para o trabalho, programa a visita ao museu. Para o passeio, programa rever o amigo e o lago.

No país do lago tudo é limpo e organizado. Na cidade do lago andam sempre muitos visitantes estrangeiros, impressionados com a beleza e a organização. À volta do lago há muitos prédios, entre hotéis de várias estrelas, lojas de grife e um cassino. Acima dos prédios, veem-se colinas cobertas de casas sofisticadas contemplando a vista belíssima.

Nas aleias à volta do lago os moradores e os visitantes andam devagar, olham a paisagem e conversam nas suas tantas línguas, como uma babel horizontal. Às vezes uma frase em português atravessa à sua frente. Nas ruas os carros se movem a poucos quilômetros por hora, num engarrafamento permanente mas comportado.

O amigo mora quase à beira do lago, na Via Canova. Da mansarda onde ele o hospeda, é possível ver os remadores de fim de semana, os barcos de passeio e os cisnes. Os cisnes deslizam pela água até o pé das pessoas, na borda do lago, tomando os pedaços de biscoito das mãos delas. Quando ficam satisfeitos, eles abrem as longas asas e as batem com força. Quando ficam nervosos com outros pássaros por perto, eles também abrem as longas asas e as batem com força.

O lago é muito quieto, muito largo, muito frio e muito fundo. À primeira impressão, suas águas são transparentes, tanto que se veem os peixes nadando atrás das sobras que os cisnes deixam cair. Mas, mal se avança nos deques ou se passeia nos barcos, a profundidade torna as águas igualmente muito escuras.

O vício do professor não o deixa ver o lago apenas como um belo lago suíço, mas também como símbolo. Símbolo do estrangeiro. Símbolo do estranho. Símbolo de tudo o que ele não sabe. Símbolo de tudo o que ele possa desejar. Símbolo das línguas que não domina.

Símbolo de paz. Símbolo do terror da paz.

 

Ele volta à cidade do lago para conhecer outro símbolo: o do escritor alemão que saiu da sua terra natal porque não concordava com a guerra. À época do primeiro grande conflito mundial, o escritor redigiu o artigo “O Freunde, nicht diese Töne”, em português “Ó amigos, não esse tom”, para pedir aos alemães que não cometessem o pecado do patriotismo e que não achassem que o seu lado fosse feito apenas de anjos.

Naturalmente, foi considerado um traidor da pátria. Contente de trair essa ideia de pátria, ele se exilou na cidade do lago e passou a morar na sugestiva Collina d’Oro. Lá escreveu um número incerto de poemas, contos, romances, ensaios, testemunhos, relatos de viagem e cartas – muitas cartas.

Calcula-se que tenha redigido cerca de 35 mil cartas para se comunicar com o mundo. Conhecido como “o Eremita de Montagnola”, saía de casa principalmente para passear pelas redondezas e pintar a paisagem em pequenas aquarelas, o colorido dos quadros contrastando com a melancolia dos escritos.

Hermann Hesse (creio que ainda não havia dito o seu nome) viveu na cidade do lago até morrer. Ele morreu quando o meu personagem ainda contava apenas sete anos de idade. Agora esse personagem quer conhecer a casa onde viveu o escritor, há alguns anos um museu dedicado à sua memória.

 

É um bonito domingo de outono. Faz sol e está quase quente. O personagem acorda tarde, toma café com tiramisu feito em casa e conversa um pouco com o amigo. Mais tarde, o amigo pega o carro para levá-lo a conhecer o museu, aberto todos os dias do ano todo.

Entre muitas curvas, sobem para a parte mais antiga da cidade, na verdade pequenas vilas que no decorrer dos anos se agregaram em um só município. As paredes das velhas e pitorescas casas parecem encurvadas, assim como os telhados, as janelas e as portas. Quando estacionam o carro na Piazza Brocchi e saltam, sentem-se entrando numa das aquarelas coloridas de Hesse. Não há mais retas. À medida que caminham pelas ruas estreitas e igualmente sinuosas, o sol continua no céu, mas as sombras das casas se mostram bem mais frias do que esperavam. Os agasalhos se revelam insuficientes. O amigo do personagem ri por não ter previsto essa temperatura. Decidem andar mais depressa para se refugiarem no museu, decerto aquecido.

O museu é uma torre estreita, com vários aposentos pequenos, quase que um sobre o outro, ligados por escada igualmente estreita. Uma das salas mostra os objetos do escritor, com destaque para a velha máquina de escrever. Outra sala põe lado a lado os exemplares das primeiras edições, com destaque para a primeira edição de Der Steppenwolf. A terceira sala exibe as cartas que o escritor trocou com os intelectuais do seu tempo, com destaque para uma missiva assinada por Sigmund Freud. A quarta sala, por fim, expõe algumas das aquarelas que Hesse pintou ao longo dos anos, com destaque para as paisagens da região.

O museu não se resume à Torre Camuzzi, como a chamam. Partindo dele há um circuito de caminhada, seguindo mais ou menos os passos do próprio escritor à procura de silêncio para pensar ou de ângulos melhores para pintar. O circuito sai das ruas pavimentadas e atravessa trilhas de terra cobertas de castanhas e folhas secas até chegar ao cemitério de San Abbondio, onde se encontra o túmulo de Hesse.

Apesar do frio, que aumenta ainda mais, eles decidem fazer o circuito. Caminhar a caminhada do escritor lhes parece imperativo. Andam depressa para se esquentar, passando por cantinas rústicas e pelos muros de muitas casas e chácaras, todos curvos como as casas e como os quadros. Numa das cantinas, chamada Grotto del Cavicc, uma bela mulher posa para uma fotografia ao lado de uma charrete verde transformada em jardineira. Eles param ali um instante para beber uma cerveja de trigo, embora ela não os aqueça muito.

 

Quando saem, tremendo, não há mais nenhum cliente na cantina. Os garçons parecem ter ido embora também. Voltam a andar no frio e no silêncio, que crescem como um bolo. Em pouco tempo o céu se cobre de nuvens grossas e acinzentadas. Não há ninguém andando com os dois amigos. Não escutam mais o ruído dos automóveis, das motocicletas ou dos ônibus. Ao frio do lado de fora junta-se um frio do lado de dentro, mais especificamente na espinha, quando eles percebem que nos quintais das casas os cães não latem à sua passagem.

Os dois amigos param de conversar, mas não interrompem a caminhada e chegam até o cemitério, em frente à Chiesa Gentilino – uma pequena igreja ao fim de uma aleia com árvores muito altas e muito estreitas de um lado e de outro. Quando entram no cemitério, procuram o túmulo do escritor, enquanto se surpreendem com flocos brancos caindo sobre os seus cabelos e casacos.

É neve. Não é muito comum nevar na cidade do lago sequer no inverno, quanto mais em pleno outono, e num dia que começou quente e com sol. Encolhendo-se no fraco agasalho, eles avançam entre os túmulos procurando o de Hesse.

No fundo do cemitério eles veem uma tumba que de longe sabem ser a que procuram, mas por uma razão aparentemente absurda. Eles sabem que aquele é o túmulo do escritor porque sobre a pedra de mármore há um cão grande, de pé, olhando diretamente para eles.

Chegam perto. Confirmam que se trata realmente do túmulo que procuram.

E que o cão não é um cão, mas um lobo.

 

O susto.

O susto frio.

 

Não há lobos na Suíça, muito menos nas cidades.

A despeito disso os olhos do lobo, brilhantes como brasas na neve, apontam para eles. Eles não sentem propriamente medo. A sensação de sonho acordado é maior, reforçada pelo frio intenso e pela neve fora de época.

De repente o lobo levanta a cabeça e uiva, um uivo tão longo e tão alto que penetra o cérebro deles e se multiplica em muitos uivos a toda a volta. Eles levam as mãos aos ouvidos e dão as costas para o lobo, apenas para se perceberem cercados por dezenas de outros lobos, todos uivando em cima de todos os túmulos.

Quando eles param, o amigo diz: calma. Calma. De algum modo que ainda não podemos compreender, Hesse nos jogou de novo no Magisches Theater.

Sim, tem toda a razão, concorda o meu personagem, recordando-se do final do romance que lera pela primeira vez com dez anos de idade. Esses lobos não podiam estar aqui mas estão. Hoje não podia nevar mas está nevando. Logo, eles não vão nos atacar. Na verdade, e se tudo isso é verdade, alguns desses lobos somos nós.

O amigo diz, sim, tem toda a razão, nós podemos ser alguns desses lobos. Mas quem serão os outros lobos? Eles parecem muitos.

Devagar, eles andam para fora do cemitério. Os animais os acompanham devagar. O lobo maior, aquele que estava sobre o túmulo de Hesse, parece ser o líder, o lobo alfa. É um espécime impressionante, de pelagem densa e acinzentada, os flancos finos, os ossos e os músculos bastante salientes. Os olhos não se dispõem como os dos cães, horizontalmente, mas em linha oblíqua. E brilham. Brilham como brasas na neve.

 

Quando saem pelo portão do cemitério, veem que há muito mais lobos e que eles tomaram as vias próximas. Não há carros nem pessoas por perto. Os dois amigos pressentem que as pessoas se recolheram a suas casas, quer para se protegerem do frio fora de época, quer com medo dos próprios lobos. Ambos hesitam por alguns segundos, mas logo o lobo líder lhes aponta de maneira inequívoca o caminho: para baixo, na direção do lago.

Não há como voltar para pegar o carro; eles têm de fazer o caminho de volta a pé, obedecendo aos lobos. Os lobos os seguem. A Via Sant’Abbondio, a Via Montalbano, a Via Collina D’Oro, todas as ruas que descem se encontram limpas de veículos e de pessoas, mas cada vez mais cobertas de neve e de lobos. O personagem e o seu amigo sentem que o frio aumenta cada vez mais, mas ao mesmo tempo percebem-se cada vez mais aquecidos pelo hálito dos animais próximos e pelo calor do seu pelo.

Depois de mais ou menos uma hora daquela caminhada inusitada, os dois homens e os muitos lobos chegam finalmente ao lago, encontrando suas margens tomadas por toneladas de neve e quiçá por outros tantos milhares de lobos ora se destacando na neve, ora se confundindo com ela.

A mão do meu personagem descansa entre os pelos da nuca do lobo maior. O belo animal permite o contato, como se gostasse. Ele e o amigo são os únicos seres humanos à vista em toda a cidade. Não há mais ninguém na rua, nem os turistas. Na água decerto gelada, os cisnes se mostram especialmente nervosos, abrindo as longas asas e as batendo com força e sem parar. Apenas alguns cães, principalmente Berneses e São Bernardos, passeiam entre os lobos e os cheiram sem medo.

 

Os lobos não atacam os cães nem ninguém. Os lobos também não se atacam entre si, como normalmente não fazem. Eles apenas uivam, como se celebrassem ou como se lamentassem.

Se os lobos saíram de dentro das pessoas e tomaram a borda do lago nevado, pensa o meu personagem ao lado do lobo de Hesse, isso significa que o homem não precisa mais ser o lobo do próprio homem.

Então ele olha para cima e, com um sorriso trêmulo, me pede: por favor, ponha o ponto final do conto exatamente aqui.

Nesse monte de neve.