A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


O caso da senhora Santiago


O conto "O caso da senhora Santiago" foi publicado em 2008 pela editora Nova Fronteira no livro Quem é Capitu?, organizado por Alberto Schprejer.


O CASO DA SENHORA SANTIAGO

Gustavo Bernardo

 

Bom dia, minha senhora. Dormiu bem? Trataram-na bem? Com certeza que sim. Nosso estabelecimento é famoso pelo acolhimento que dispensa a seus hóspedes. Diga-me, por favor, seus aposentos estão a seu gosto? Mas não se preocupe, providenciaremos roupas de cama mais condizentes com a sua pessoa. Algo mais? Sinto muito, mas infelizmente não podemos retirar as grades da janela. Quando voltar a seus aposentos observe com atenção, por favor, esticando só um pouco o pescoço, e verá que todas as janelas de todos os aposentos têm as mesmas grades. Não seria estético retirarmos as grades apenas da sua janela, não lhe parece? Os outros hóspedes decerto não apreciariam a exceção. A cor da janela também a deprime? Eis algo que se me mostra improvável, senhora Santiago: a cor verde foi cuidadosamente escolhida para as janelas por lembrar a natureza, portanto por suas óbvias características calmantes. Essa cor, ao contrário da cor amarela, nesse caso a senhora teria toda a razão, não é de maneira nenhuma depressiva. Além do mais, retornamos ao problema anterior: se todas as janelas são verdes então não podemos modificar apenas uma, sob pena de desobedecermos à estética do prédio e assim desagradarmos a todos os demais hóspedes, digamos assim. Sim, estética é algo a que se pode desobedecer e a que na verdade não se deve desobedecer, sob pena de perdermos as referências de harmonia que nos ajudam a trabalhar e a viver. Tudo isso por causa da cor verde e das grades, estas completam aquela e emprestam a segurança, inclusive visual, de que os senhores e as senhoras tanto precisam. Ah, a senhora quer voltar para casa, onde não há grades nem janelas verdes? Compreendo. Não, é natural. É bastante natural, de fato. Prometo, falaremos sobre o seu desejo mais à frente. Isso, sobre sua volta para casa. Hoje mesmo, não se preocupe. Por ora, preciso apenas confirmar algumas informações suas para preencher a nossa ficha. Nome? Capitolina Santiago, perfeitamente. Claro que eu já sabia o seu nome, minha cara. Todavia, é necessário confirmá-lo, quer para que não pairem dúvidas, quer para que eu a escute falar sobre a senhora mesma. Sim, isso é absolutamente fundamental. Sua idade, por favor? Sei que não é pergunta que se faça a uma dama, mas os funcionários que elaboraram a ficha, tempos atrás, não tiveram a elegância de abrir essa exceção, que se há de fazer. Idade, por favor? Não diz? Recusa-se a dizê-la? Tudo bem, não é um grande problema: por ora posso deixar esse campo em branco. Nome da mãe? Dona Fortunata, interessante. Expressivo. Pai? Senhor Pádua, confere. Filhos? Ah, um menino, ótimo. Seu nome, por favor? Luís, foi o que disse? Mas não é Ezequiel? Se eu sei, por que pergunto. Já lhe disse, porque preciso perguntar, precisamos ambos, a senhora e eu, ter certeza do que falamos e sobre o que falamos. Perfeito, Ezequiel. Moradia, por favor?... Muito obrigado. Por enquanto, é suficiente. Podemos voltar à sua pergunta anterior. Qual pergunta? Ora, se a senhora pode voltar à sua casa ainda hoje, já não o deseja mais? Ah, não era uma pergunta, a senhora quer e vai voltar para casa ainda hoje. Pois é, mas não pode não, assim, logo logo. Isso mesmo, não pode. Porque o senhor Bento Santiago, seu marido, certo?, nos procurou para nos solicitar que a internássemos no nosso estabelecimento. Agora a senhora entendeu, de fato não se encontra hospedada em um hotel mas sim internada em um nosocômio. Exatamente, um nosocômio, uma espécie de hospital destinado ao tratamento de pessoas, digamos, mentalmente perturbadas. A senhora não se sente mentalmente perturbada, folgo em sabê-lo. No entanto, uma pessoa mentalmente perturbada não é a mais indicada para julgar a si mesma, se o está ou não. Como os bêbados, que sempre dizem que não estão bêbados. Sei perfeitamente, a senhora não se encontra alcoolizada, não é esta a nossa questão. Falamos de determinado tipo de perturbação mental: a senhora sente que está bem, perfeito, mas esse sentimento faz parte dos sintomas da sua doença, é muito comum que o doente negue a sua doença. Que bom que perguntou qual é a sua doença, assim nós todos evoluímos na direção da cura que todos desejamos, sem dúvida. Provisoriamente, já que ainda precisamos proceder a alguns exames, testes e provas, eu diria que a sua doença é uma manifestação secundária, nem por isso menos elaborada, de Confiance Affective Peu Fiable. Não conhece a expressão nem a língua, compreendo. O senhor Pádua não pôde lhe pagar cursos de francês, ora, isso não é vergonha nenhuma. Eu traduzo a expressão para a senhora: digamos que a sua doença é uma manifestação secundária de Confiança Afetiva Não-Confiável. O que isso quer dizer, afinal? Bem, retraduzindo os termos técnicos para uma linguagem que compreenda com mais facilidade, eles querem dizer que a senhora é afetiva e compulsivamente não-confiável, isto é, ao mesmo tempo que atrai as pessoas não lhes desperta a mínima confiança necessária para uma convivência saudável e civilizada. Como eu posso dizer uma barbaridade dessas sem conhecê-la? Primeiro, não é uma barbaridade, mas sim uma doença, como lhe falei. Segundo, na verdade eu a conheço bem, ou melhor, conheço bastante bem casos crônicos como o seu. As particularidades do seu caso em particular me foram transmitidas pelo seu marido de maneira extremamente detalhada, quando a trouxe aqui. Depois que a enfermeira Leonela a levou para o seu quarto, ele fez questão de me entregar um dossiê volumoso a seu respeito, dossiê este a que ele curiosamente não deu o seu nome ou apelido, como seria de se esperar, mas sim o próprio apelido pelo qual ficou conhecido: Dom Casmurro. Trata-se de um apelido muito revelador, temos de convir. Naturalmente, na hora me lembrei do outro Dom, aquele que enlouqueceu de tanta leitura de romances de cavalaria e saiu pelo mundo montado num pangaré com uma bacia de barbeiro na cabeça. Um caso clássico, citado em todos os anais da ciência. Juntando esse título que ele deu para o dossiê com a circunstância inusitada de tê-lo escrito como um romance, não pude deixar de considerá-lo um outro caso interessantíssimo. Poderíamos chamá-lo, elaborando quiçá uma nova teoria a respeito, de Fobia de Ficção. A Fobia de Ficção se associa, reconheçamo-lo, a uma insegurança patológica específica, fazendo com que se combine a sua própria doença, senhora Capitolina, com a doença do seu marido, e de uma maneira esteticamente muito interessante, também devo reconhecer. A senhora sabia que no seu romance, digo, no seu dossiê, o senhor Santiago é capaz de levantar tantos argumentos contra a senhora, isto é, a favor de que a senhora o tenha traído com o seu melhor amigo, quanto argumentos a favor da senhora, isto é, contra a hipótese de que o tenha traído com esse melhor amigo ou com qualquer outro homem? Impressionante, não acha? Não acha? E quer falar com ele para desfazer de uma vez por todas o que chama de mal-entendido? Creio que não será possível, pelo menos ainda não. Por quê? Ora, porque eu não podia deixá-lo à solta na cidade. Eu o internei imediatamente depois da senhora, ele nem chegou a ultrapassar o portal. Preciso estudar os dois casos cuidadosamente, eles são tão significativos que me ajudarão a dar mais alguns passos importantes no domínio do oceano da loucura. É isso, o seu marido também se encontra internado aqui conosco, em outra ala. Curioso é que ele tenha igualmente reclamado das grades e da cor verde nas janelas, o que me empresta mais uma conexão que pode ser importante. Fora o fato de vocês dois – perdão pela intimidade momentânea, mas o estudo dos seus casos me torna como que um pouco íntimo tanto de você quanto de seu marido, se me permite –, portanto, fora o fato de vocês dois serem muito ligados um ao outro desde muito jovens, o que seria uma outra motivação para explicar as preocupações semelhantes, devemos acrescentar a reação negativa ao ambiente como um outro sintoma secundário, e novamente, nem por isso menos importante. A relação interna entre vocês me leva a formular uma espécie de diagnóstico duplo e complementar deveras interessante. Por que é interessante? Bem, porque sugere que o seu casamento com o seu marido seria não apenas um casamento entre duas pessoas, entre duas personalidades, entre duas almas, digamos assim, mas igualmente um casamento entre duas doenças que desse modo se reforçam uma à outra em uma espiral contínua e viciosa muito difícil de interromper. Não, eu não estou dizendo que cada um de vocês é em si uma doença, o que estou dizendo é que foram as duas doenças, a sua e a do seu marido, que os aproximaram e os casaram e, depois, os separaram, percebe? Não percebe? Compreendo, a teoria não é simples sequer para os meus ilustres colegas, que dirá para leigos no assunto, mas posso lhe assegurar que, apesar da sua ousadia e do seu ineditismo, ela se encontra muito bem, na verdade muitíssimo bem fundamentada. Quem gosta de falar assim? Assim como? Ah, cheio de superlativos: o senhor José Dias, perfeitamente, li sobre ele no dossiê-romance. Outro caso interessantíssimo, talvez o chame aqui um dia desses. Mas por ora nos concentremos em você, minha cara, e no seu ilustre marido e autor. Não, ele não é necessariamente o seu autor, mas sim autor do dossiê-romance sobre você. Todavia, talvez possamos pensá-lo, em algum nível, como seu autor sim: como se a manifestação enviezada do ciúme masculino fortalecesse a doença feminina em questão, a saber, nossa conhecida Confiance Affective Peu Fiable. Que seja. Mas voltemos à minha teoria. O casal que Bento e Capitolina Santiago ainda formam, mesmo que no momento em aposentos separados, se tornará o corolário dessa teoria, fornecendo-me a demonstração que faltava no brilhante edifício que, modéstia à parte, venho construindo pouco a pouco. Compreendo, compreendo, você não entende de edifícios e teorias, logo também não entende de metáforas. Como? Prefere que eu volte a tratá-la por senhora? Perfeitamente, seu desejo é uma ordem. Não, nem todo desejo seu é uma ordem, mas somente aqueles a que eu possa atender, como o de tratá-la mais cerimoniosamente. Dizia eu então que a senhora não entende de edifícios e teorias, logo também não entende de metáforas. Todavia, a despeito dessa dificuldade natural a seu sexo, eu sempre me sinto na obrigação moral e científica de explicar a meus pacientes e demais hóspedes do estabelecimento todos os aspectos envolvidos no tratamento. Trata-se de uma atitude pedagógica que, em algum nível subterrâneo, talvez a ajude a se curar mais à frente, além de auxiliar a mim mesmo a organizar os meus procedimentos e, portanto, o meu pensamento. Ah sim, a senhora quer saber o que eu acho não do seu caso clínico mas sim da acusação do seu marido, a saber, que a senhora o teria traído com o o senhor Ezequiel. Calma, eu não quis dizer que o seu marido disse que a senhora o teria traído com o seu próprio filho, nesse caso teríamos de chamar um outro tipo de profissional, que aliás pouco me agrada. O que eu quis dizer foi que o seu marido disse que a senhora o teria traído com o seu melhor amigo, o senhor Ezequiel Escobar. Ah, bom. Mesmo assim não está bom, compreendo. Mas respondo à sua interrogação. Deixando à parte, para consideração posterior, o fato de a senhora não afirmar explicitamente, pelo menos até o presente momento, que não traiu de modo algum o seu marido, nem com o senhor Ezequiel Escobar nem com ninguém mais, minha intuição e minha experiência me dizem que a senhora não deve ter traído o seu marido. Então por que está aqui!, a senhora me pergunta com a devida ênfase, percebi. Eu lhe respondo que não me cabe julgá-la e muito menos condená-la por infidelidade e adultério, tais atos não competem à medicina que professo, mas sim cuidar adequadamente da sua doença e, se possível, curá-la. E se não for possível?!?, eu escutei bem, não precisa gritar, por favor, se controle. Não me agradaria chamar a senhorita Leonela antes do término dessa nossa sessão. Controlou-se? Muito bom, esse é um bom sinal. Afirmo-lhe então que é possível curá-la e que eu sou o profissional mais indicado para fazê-lo, não se preocupe, a expressão “se possível” é apenas uma expressão de modéstia científica preventiva. Qual é a sua doença, então? Eu já lhe disse de maneira sumária, mas passo a lhe explicar um pouco mais detalhadamente, me agrada bastante o seu interesse. Bem, continuando a relevar o fato, para aquela consideração posterior, de a senhora persistir não afirmando explicitamente que não traiu de modo algum o senhor Bento Santiago, mesmo depois de eu lhe fazer notar isto, passo a comentar a sua doença e o seu caso particular. Contudo, para melhor definir o conteúdo da doença precisamos definir o seu continente, isto é, a pessoa que porta a doença. Então, precisamos perguntar: quem é a senhora? Quem é Capitolina Santiago? Em última instância, mais íntima e mais próxima: quem é Capitu? Vejamos. Há uma expressão, no dossiê-romance do seu marido, que tenta descrevê-la: “olhos de ressaca”. A expressão é precedida daquela outra, proferida pelo senhor José Dias: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Não conhecia esta última? Interessante. Ambas as expressões são fortes, mas a segunda, que parece ter sido pensada primeiro, é um pouco ofensiva, reconheço, enquanto a primeira, que parece ter sido pensada depois, constitui-se a partir de uma metáfora muito bonita que também me serve. A partir dos seus olhos, as portas da alma!, conforme diziam os antigos, olhos cuja cor vejo agora que oscilam do verde-claro ao azul-escuro como se seguindo a luminosidade do ambiente, a partir desses olhos o senhor Santiago pretendeu que eles lembram e sugerem a ressaca no mar, a saber, a revolta das ondas movidas pela maré e por ventos muito fortes. Interessante notar, de passagem – sim, gosto da palavra “interessante” – mas, interessante notar que o amigo dos dois, supostamente seu amante segundo o senhor Bento, tenha justamente morrido afogado no mar e num dia de ressaca, apesar de nadar muito bem. Bem, normalmente são os melhores nadadores aqueles que morrem afogados, porque lhes falta o medo que garante a sobrevivência cotidiana. Ou seu amante, digo, ou o senhor Escobar teria preferido morrer no mar, afogado que já se encontrava na ressaca dos olhos de uma certa senhora carioca? Oh, desculpe-me a menção desagradável, compreendo que o estimava, de um jeito ou de outro. Naturalmente que compreendo, a minha função é compreender. Tome, use o meu lenço. Por nada, não se preocupe. Voltemos então a seus olhos de ressaca, neste momento ainda salgados e molhados como as águas da baía de Guanabara, me perdoe a licença poética. A senhora gosta de licenças poéticas? Que bom. Pois são esses seus olhos que mostram a senhora como uma força da natureza, indubitavelmente bela mas igualmente inconstante e, portanto, perigosa. Sim, eu disse perigosa. Seu marido parecia vê-la de ambas as maneiras, sintetizando sua percepção na bela imagem dos olhos de ressaca. Creio que ele se encontrava próximo da verdade, mas não atinou com a verdade mesma. Não creio, tanto pelo dossiê-romance quanto pela minha observação in loco e in pectore, que a senhora mesma seja uma ressaca ambulante, prestes a invadir e afogar as terras e as pessoas. Não. Não me parece que a senhora mesma seja inconstante. Aliás, se o seu problema fosse esse, o tratamento seria muito mais fácil e muito mais curto. Não. A senhora é na verdade muito calma e controlada; o que faz é provocar nos outros, jamais em si mesma, as mais terríveis ressacas, afogando as pessoas que a cercam e a amam em incerteza, insegurança e ansiedade, em suma: em desespero. Por isso o senhor Escobar, por conta de sua própria doença em combinação com a da senhora, talvez tenha precisado se afogar em uma ressaca de verdade. Oh, desculpe-me novamente, mas simplesmente não posso censurar as minhas próprias palavras em benefício da precisão do diagnóstico, espero que me entenda. Aqui tem um outro lenço, pode usá-lo, não se preocupe. Dizia eu que a senhora provoca ressacas nos que a cercam. Claro que não se trata apenas da cor dos seus olhos. A cor dos seus olhos tão-somente espelha e expressa o seu interior, paradoxalmente intenso e plácido ao mesmo tempo. É essa intensidade da senhora e do seu desejo, não importa o objeto desse desejo, que, associada a uma placidez interna impressionante, desequilibra as pessoas à sua volta e em particular os homens, como que devolvendo-nos à nossa lama primitiva. Eu disse nossa? A senhora quer dizer, como se me incluísse entre os homens que você, perdão, que a senhora perturba? Deve ter sido apenas um lapso, não se preocupe: a ciência me protege e à senhora, os meus interesses são e só podem ser científicos. Voltemos a seus olhos, mas para sair deles. Há obviamente aspectos psicológicos fundamentais na constituição da sua doença, mas desejo comentar antes os aspectos propriamente físicos. Como assim? Físicos, quero dizer, ligados diretamente ao aspecto físico da senhora – sendo um pouco mais direto, permita-me, ligados ao seu corpo, à sua pele. Lembro-a que a minha digressão é estritamente médica, por favor não se preocupe nem se acanhe. Seus olhos, natural, fazem parte da sua dimensão física, eles tanto nos introduzem à sua alma quanto são emoldurados pelo seu rosto e pelo seu corpo. A descrição que o senhor Bento fez da senhora ateve-se em especial aos olhos e, em determinado momento, a seus braços, mas se absteve de comentar detalhes importantes a respeito de sua aparência física. Vejamos. A senhora tem olhos claros, ainda que de cor mutante, e sua pele também é clara, mas seus traços físicos suaves não escondem sua ascendência negra. Eu disse o que a senhora ouviu: seus traços físicos suaves não escondem sua ascendência negra. Estou errado? Como eu suspeitava, ou melhor, como já não tinha mais dúvida. Essa ascendência negra, que se trai pelo formato triangular do rosto, pela testa ligeiramente mais pronunciada à frente, pelos cabelos por demais pretos, e especialmente pelos lábios apenas um pouco mais grossos, apenas um pouco mais carnudos, se associa a suas menores atitudes, palavras e silêncios para jogar um homem branco, caucasiano, limitado por sua própria condição de suposto dominante, no seio de um mar turbulento, no meio do oceano onde as raças se formaram e se digladiaram lá no início dos tempos. Parece-lhe que estou a delirar? Asseguro-lhe que não é o caso. Prezada senhora Santiago, eu não deliro, eu cuido dos delírios das outras pessoas. O que falo é científico: psicológico, biológico, histórico, antropológico, enfim, lógico. O homem branco se sente desarmado perante uma mulher negra mesma que ela não o pareça à sua visão consciente, porque o desejo que sente por essa mulher o joga em um outro mundo, o mundo antigo de toda a humanidade e o mundo antigo da sua própria infância, cercado que foi por amas-de-leite e de cor, cercado que foi por histórias de noites escuras e corpos ardentes. A senhora diz que não é negra, que apenas sua ascendência é negra e apenas por parte de mãe, mas suspeito que você, Capitu – perdão, não pude resistir –, eu dizia, suspeito que a senhora seja mais negra do que muitas negras que vivem nas nossas fazendas e nas nossas casas, simplesmente porque sua negritude, se posso usar esse novo termo, é parte essencial de sua alma. É essa negritude que a faz tão próxima e tão inacessível, tão intensa e tão plácida, tão viva e tão suspensa sobre a vida, enfim, tão insuportavelmente bela. Não se preocupe, não estou fazendo um galanteio inoportuno, apenas tirando uma conclusão lógica da seqüência dos argumentos. Talvez por isso, por ser tão insuportavelmente bela, o senhor Machado de Assis tenha desejado tê-la construído ele mesmo como a personagem feminina mais forte da literatura brasileira, quiçá mundial, desenhando-a a partir da sua alma negra feita de ressacas e tormentas inenarráveis. Como? Quem é esse senhor Machado de Assis? Ora, apenas um funcionário público que chegou aqui na Casa Verde contando que escrevera uma história que explicava o amor e todas as suas sombras, com dois personagens chamados Bentinho e Capitu. A coincidência é impressionante, admito, o que só torna o caso de vocês três extremamente interessante. Digo o caso de vocês três porque, antes mesmo do senhor Bento e da senhora, eu já havia internado o senhor Machado de Assis, considerando-o acometido de uma variante mais sofisticada ainda da Fobia de Ficção, uma variante ainda mais perigosa do que a do seu marido. Não contente em afirmar que os inventara, à senhora, a seu marido e ao senhor Escobar, que Deus o tenha, ainda afirmou que inventou a mim mesmo, a mim, o doutor Simão Bacamarte que tem à sua frente, e que tinha vindo aqui apenas para tirar uns dedos de prosa com sua própria criação, imagine só. Passarei a me dedicar agora a essa combinação impressionante de doenças mentais, a partir da qual, sem sombra de dúvida, terei todas as condições de compreender e curar a loucura humana. Suspeito fortemente que a chave para todas as suas manifestações se esconde na Fobia de Ficção. O mundo me agradecerá por isto, mas, com a modéstia que me é peculiar, mostrarei ao mundo que terei sido apenas o instrumento. O mundo na verdade deverá agradecer, no futuro, a Capitolina Santiago, também conhecida como Capitu, a Bento Santiago, também conhecido como Dom Casmurro, e a Joaquim Maria Machado de Assis, também conhecido apenas como Machado de Assis, pela espantosa cura, que ora se avizinha, de todas as loucuras, em especial da loucura amorosa. O sofrimento da senhora e dos senhores não será em vão. Dito isto, devo encerrar nossa sessão de hoje para atender o próximo paciente, não por acaso o nosso autor. Agora a enfermeira, a senhorita Leonela, a levará de volta a seus aposentos. Fique com os meus lenços, não se preocupe.