A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Cola sombra da escola

Cola sombra da escola apresenta a "cola" como um produto secreto da própria escola, baseando-se nas reflexões de Michel Foucault em Vigiar e punir.

O ensaio foi publicado em 1997 pela EdUERJ, com apoio da Escola Parque do Rio de Janeiro.


A ESCOLA NA BERLINDA

Dau Bastos

 

 "Pediram-me uma reflexão ética sobre a escola que temos,
para pensar a ensinabilidade da moral".


Assim se explica Gustavo Bernardo, que se desincumbiu do dever de casa centrando seu foco sobre a cola, para expô-la como causa de dependência intelectual e germe de todas as desonestidades. À dureza do veredito, porém, contrapõe uma solução objetiva: trocarem-se os testes em que o examinado se vê entregue à sua própria ignorância por provas pautados pela consulta. Dessa forma, os estabelecimentos de ensino deixariam de produzir potenciais delinqüentes e transformariam o saber em constructo infinitum.

Para fundamentar seus argumentos, Gustavo recorre a uma bibliografia composta de escritos pedagógicos, jurídicos, filosóficos e ficcionais. Apropria-se destes com argúcia e fidelidade, explorando-lhes as tensões e costurando-os com frases tão elaboradas quanto os trechos citados. Acaba comprovando, com sua própria produção, a pertinência daquilo que propõe. E nos faz sonhar com o dia em que os estudantes poderão exercitar esse tipo de competência desde o início da vida escolar.

O livro de que tratamos é povoado por pensadores que, frequentemente, só conhecemos com alguma profundidade a partir do terceiro grau. Sem este elenco a lhe servir de alicerce, Gustavo dificilmente atingiria consistência. Mas é bem sucedido devido ao discernimento com que escolheu os extratos e à destreza com que os transformou em alavancas. Ora, se certos textos exigem uma capacidade de absorção que só a idade dá, o desempenho pleno dos papéis complementares de leitor e autor pode ser estimulado desde cedo. Para tanto, é preciso que a gurizada tenha liberdade de recorrer às fontes e seja estimulada a ver cada prova como oportunidade de desenvolver algo a partir de suas descobertas. É necessário, em síntese, que se antecipe a maneira pós-graduanda de se estudar. Um de seus melhores resultados será a ampliação significativa do número de ensaios como o que resumiremos a seguir.

Gustavo inicia seu livro falando da visão platônica de que as idéias em si se projetam sobre nossas costas, infelizmente opacas. Isso restringe nossas realizações a sombras, correspondentes aos nossos atos, naturalmente deformados. Assim dispostos, pensamento puro e percepção sensível são díspares e hierarquizados: se aquele é meta, esta merece correção. No fosso entre ambos, a escola se viabiliza, para afastar o corpo discente da escuridão em que se encontra e elevá-lo à alma, sinônimo de pureza, essência, gozo.

O corpo docente vê essa tarefa como tão nobre que se permite usar qualquer recurso para executá-la, da invenção de verdades ao esforço para dominar. Preconizado pelo filósofo e seguido pela cristandade, tal procedimento é comum aos pedagogos de todas as tendências políticas:

Não concordamos, mestres à direita ou à esquerda, em contar aos alunos apenas meias-verdades (que são, é claro, meias-mentiras), sobre assuntos de avaliação e disciplina, principalmente? Em muitos casos, mesmo supondo que mentir (ou semi-dizer) nos constranja, não vemos alternativa, sob pena de perdermos... o controle. (1997, 20)

Unânimes quanto à necessidade de domar para melhor conduzir, os pedagogos esquecem que também estão expostos à turvação e que, portanto, reproduzem de maneira sombria até mesmo o pensamento que os norteia. Na verdade, o deslumbre que experimentam pela luz lhes agrava a opacidade, ao lhes fechar os olhos. Assim se explica que não vejam que sua obra - a sala de aula - é mera materialização da cela: idéia, por excelência, do controle.

Acontece que este vitima quem ensina e quem aprende. Sua lembrança é despertada pelo toque da sineta, que instala sempre uma sensação de aprisionamento, ao anunciar o fim do recreio e o reinício de uma atividade penosa para todos. A reforçar a asfixia existem as passadas de supervisores e diretores pelo corredor, a planta do próprio prédio e a fragmentação do conhecimento em porções significativamente batizadas de "disciplinas".

Para impô-las aos alunos e manter a ordem, os professores dispõem da nota, que Gustavo apresenta como correlato de outros mecanismos penais. No entanto, se a expõe como precária ou mesmo merecedora de condenação, é suficientemente realista para vê-la como necessária:

A abolição simples da nota tem, por trás, na sombra, uma teoria do ser humano, e do conhecimento, deveras ingênua: a de que se pode querer aprender sem interesse - ora, como querer, sem querer? (1997, 29)

Mal menor, a nota só se torna um problema grave por servir a uma aferição que supõe a burla. Esta, sim, deve ser banida. Para isso, deve-se reduzir a expectativa em torno da memória, em prol do exercício da imaginação. Os dados precisam ficar ao alcance do estudante, a ser avaliado de acordo com o que inventar com eles. O simples fato de poder trocar pontos de vista e debruçar-se sobre um conjunto bem mais amplo de informações já amplia suas chances de se instruir. Evidentemente, a avaliação de seu desempenho levará em conta tal processo - que estimulará.

A proposta de Gustavo é tão simples que parece ocorrer a quem quer que reflita sobre a via-crúcis em que o ensino se transforma, ao se confundir com um afã de fiscalização irremediavelmente quixotesco. No entanto, a mudança que eliminaria a "cola" esbarra em pretensão surgida no século XIX: a de que se podem controlar totalmente alunos, doentes, operários, indigentes, loucos e detentos. A síntese de tal bazófia coube a Jeremy Bentham, que concebeu um modelo arquitetônico e disciplinar em que salas, quartos hospitalares e cômodos semelhantes seriam transparentes, para que seus ocupantes pudessem ser vistos continuamente. Imperceptível e sem face, o inspetor plainaria, qual presença deificada, sobre mentes sempre expostas.

A crença na ficção representada pelo panóptico realmente amplia o controle, que provoca ainda mais infelicidade, como se constata em 1984 e outros livros dedicados a perspectivá-lo. Todavia, a invenção de Bentham parece um tiro pela culatra, na medida em que não corrige as faltas cometidas por quem se encontra em mira, ao contrário:

A prisão, criada para ressocializar criminosos, produz, na verdade, como pós-graduação do crime, delinquentes em profusão. A escola, criada para ensinar e formar cidadãos, forma, também, contingentes de trabalhadores semi-honestos e semi-capazes - em outras palavras, desonestos consigo mesmos e com seus parcos saberes. (1997, 36)

Ao longo dos capítulos, Gustavo utiliza a noção de sombra como ponto de contato e passagem entre diferentes jurisdições, que se superpõem entre si, até formar o desenho do que chamamos de sistema. A este, sim, interessa o panóptico em sua inteireza, isto é, como reforço à sujeição de todos os indivíduos e estímulo à criminalidade. Nesta, resvala um percentual da humanidade que, ao ser mantido em cárcere, serve de exemplo preventivo e desestimula outros tipos de transgressão: aqueles capazes de colocar em xeque o próprio poder.

Este é despersonalizado e abrangente, o que parece reduzir a responsabilidade do professor, facilmente visto como poeira minúscula de uma engrenagem medonha. Para impedir tal diluição, porém, Gustavo recoloca em cena o mestre, agora como testa-de-ferro do Big Brother e outras ausências coercivas. Também o alça à incômoda posição de idéia da qual brota a fantasia de um Deus cuja força deriva justamente de sua inexistência.

Ao eleger seu público como alvo, o ensaio incomoda ainda mais. Mas felizmente se deixa pontuar pela exposição paulatina de um antiplatonismo aliviador, cujo ponto de partida é valorizar a realidade, ao substituir a pergunta sobre "que aluno queremos ter" por "questão anterior: que aluno de fato temos; que pessoas se encontram em nossas salas, olhando para nós" (1997, 21).

Cadernos Pedagógicos e Culturais, nº 6, 1997.



e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com