A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Contos de Machado


Contos de amor e ciúme de Machado de Assis foi publicado pela editora Rocco em 2008, na esteira das comemorações do centenário de morte de Machado de Assis.


ORELHA:

 
A leitura de ficção é importante não apenas para se tomar contato com uma experiência artística, portanto, com uma experiência de beleza, espanto e deslumbramento, mas também porque ela nos permite ver o mundo com olhos diferentes dos nossos, a saber, os olhos dos diferentes personagens que passeiam à nossa frente. Com isso, enriquecemos nossa própria perspectiva e nos vacinamos contra pensar-de-um-jeito-só, isto é, contra a intolerância e o dogmatismo.

A leitura da ficção de Joaquim Maria Machado de Assis é importante não apenas para se conhecer melhor aquele que costuma ser considerado o maior escritor brasileiro, mas também porque sua narrativa nos força a pensar por vários ângulos uma mesma questão, portanto, nos força a pensar melhor.

Os contos de amor e ciúme de Machado de Assis aqui reunidos tratam justamente de uma questão que interessa a todo mundo, para a qual todos têm alguma opinião mas sobre a qual ninguém pode dizer que já sabe tudo, especialmente se estiver envolvido com alguém. Essa questão é o amor e sua sombra, o ciúme. Ler esses contos é importante não apenas porque são ótimos, mas também porque eles podem nos ajudar bastante a pensar melhor nossas próprias relações e assim elaborar melhor nossas próprias opiniões sobre os outros e sobre nós mesmos.


Apresentação:

O AMOR E SUA SOMBRA

Gustavo Bernardo

 

Os romancistas sempre falaram do amor, apontando-o como aquele sentimento que num momento leva as pessoas ao céu (quando estão apaixonadas e são correspondidas) mas que no outro instante as joga no inferno (quando elas se sentem abandonadas ou traídas). Na descida para o inferno, como sabem os que sofrem, o amor se transforma em ciúme. O ciúme é um daqueles assuntos que freqüenta tanto a conversa na mesa do bar quanto o romance do escritor consagrado. Isso acontece porque o sentimento do ciúme talvez revele alguns dos segredos que se encontram na sombra do amor.

Nosso mais importante escritor, Joaquim Maria Machado de Assis, construiu toda a sua obra de ficção sobre os mistérios do amor e do ciúme. Como se trata de mistérios que sempre queremos esclarecer pelo menos um pouco que seja, encontramos aqui uma boa razão para ler Machado de Assis: seu pensamento sobre as venturas e as desventuras amorosas permanece atual e lúcido.

Tudo começou com o primeiro texto que Machado publicou, em 1861, quando tinha apenas 22 anos de idade. Esse texto não era dele, mas sim uma tradução que ele fez de um ensaio satírico francês, dando-lhe o seguinte título em português: Queda que as mulheres têm para os tolos. O título já era uma provocação, ao dizer que as mulheres preferem a companhia dos tolos. O texto satirizava tanto mulheres como homens, mostrando como as opções amorosas de ambos seriam muito pouco racionais. Machado parece ter absorvido as idéias principais desse texto para depois desenvolvê-las e refiná-las nos seus contos e romances.

Que tolo é esse que as mulheres preferem? O tolo aqui não é o bobo, mas sim aquele tipo de machão vulgar e pouco instruído que quer apenas “se dar bem” com as mulheres. Por que as mulheres prefeririam o tolo? Ora, como o tolo não ama ninguém exceto a si mesmo, ele domina as mulheres com facilidade: elas se deixam enganar melhor por aquele que as faz rir e não as leva a sério.

O contrário do tolo é o “homem de espírito”, aquele sujeito inteligente, culto, ético, respeitoso. Para o homem de espírito, o amor é muito sério e, conseqüentemente, ele trata a mulher de maneira igualmente séria: essa seriedade o leva a tal nível de exigência sobre a mulher que acaba por humilhá-la sem querer. Com melhor noção das próprias imperfeições do que o homem, a mulher se afasta desse sujeito que exige mais do que ela pode ou quer ser. Por isso, ela termina por ridicularizar o homem de espírito, mostrando sua principal falha: como dizem os jovens hoje em dia, ele “se acha”, isto é, ele se pretende um ser humano próximo do perfeito, logo, ele se revela pedante e arrogante, o que leva a mulher a abandoná-lo pelo tolo.

No desenvolvimento dos contos e romances de Machado de Assis, o homem de espírito fracassava, sim, mas aproveitava o fracasso para pensar e para desenvolver uma perspectiva irônica sobre a realidade, sobre as mulheres e sobre si mesmo. A resposta machadiana para o homem de espírito, portanto, é a ironia. Toda a obra de Machado critica ironicamente os homens, pela sua tolice ou pelo seu pedantismo, e também critica do mesmo modo as mulheres – no mínimo, por seu baixo nível de exigência quanto aos homens. A mulher é o alvo principal da reflexão dos protagonistas masculinos machadianos não apenas porque eles a desejam e não a entendem, mas também porque ela acaba se mostrando como uma espécie de símbolo de toda a vida social do seu tempo, vida social esta baseada em ostentação, afetação e fingimento.

No seu primeiro romance, Ressurreição, o escritor exercitava a ironia desde o título: ele anuncia a ressurreição de um amor que, no entanto, nunca acontece. O protagonista se chama Félix, mas não é feliz. Ele ama a bela Lívia, uma jovem viúva que já tem um filho, mas tem tanto medo de se comprometer e de ser traído que a acusa de traição baseado apenas na intriga sem provas de um rival, terminando por afastá-la e afastar-se. Eles não se casam e terminam ambos sozinhos.

O mesmo tema retorna com toda força no seu romance mais conhecido, Dom Casmurro: os noivos, Bentinho e Capitu, chegam a se casar mas são infelizes para sempre. Bentinho, o narrador, sempre em dúvida se Capitu o traiu ou não com o seu melhor amigo, acaba optando pela certeza mais fácil e decidindo, sem provas, que ela o teria traído sim. Há um século esse romance vem gerando uma discussão divertida entre os críticos, alguns jurando que Capitu traiu, outros apostando que ela não traiu, que o marido é que era paranóico. Entre os advogados de acusação e de defesa deste processo contra Capitu, encontram-se aqueles que consideram que nem Bentinho nem nós, os leitores, podemos saber a verdade, ou seja, que nós precisamos aprender a conviver com a incerteza a respeito de Capitu – e, conseqüentemente, com a incerteza a respeito da pessoa amada.

O tema combinado do amor e do ciúme não é um tema trivial, ligado apenas às fofocas do dia-a-dia. Ele toca nas grandes questões sobre a nossa existência: a importância do outro e a impossibilidade de se saber a verdade toda sobre as pessoas, inclusive sobre as pessoas com quem convivemos mais de perto. Machado de Assis tratou sempre dessas questões nos seus poemas, crônicas, contos, peças de teatro e romances.

Por exemplo, vejamos como ele representou o ciúme no poema “Verme”, publicado originalmente em Poesias Completas, em 1901, descrevendo seu poder como o de um verme terrível que corrói a flor do coração sem que se perceba: “um verme asqueroso e feio / gerado em lodo mortal, / busca esta flor virginal / e vai dormir-lhe no seio. // Morde, sangra, rasga e mina, / suga-lhe a vida e o alento; / a flor o cálix inclina; /as folhas, leva-as o vento, // depois, nem resta o perfume / nos ares da solidão... / Esta flor é o coração, / aquele verme o ciúme”.

Os contos de amor e ciúme, de Machado de Assis, contêm histórias em que o tema do ciúme é explicitamente discutido, através do conflito entre os personagens e do conflito dos personagens masculinos consigo mesmos. Ler sobre ciúme e amor para discutir sobre eles, a partir das leituras desses contos, pode ser tão divertido quanto instrutivo. Divertido, porque vemo-nos e aos nossos amores, devidamente ampliados no espelho da ficção; instrutivo, porque podemos aprender a conviver melhor com a dúvida e a incerteza, isto é, com os limites da nossa condição humana.