A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Alencar


Seleta José de Alencar foi publicado pela editora Nova Fronteira em 2002, contendo textos de José de Alencar selecionados e comentados por Gustavo Bernardo.


Apresentação

Gustavo Bernardo


Suponha o leitor que se encontra em uma praça da cidade do Rio de Janeiro, olha para cima e se depara com a estátua do escritor José de Alencar.

O que se faz com uma estátua? Pode-se nem querer saber quem foi o sujeito agora com cara de pedra. Pode-se pensar que todas as estátuas são ridículas, merecendo aquelas pichações incompreensíveis em cima delas. Ou se pode ficar curioso: o que se faz para merecer virar estátua? Em alguns casos, descobrimos que não houve merecimento algum; nós mesmos somos melhores do que a estátua. Em outros, descobrimos que o sujeito realizou uma obra importante, como é o caso.

Então, o que se faz com essa estátua específica? Podemos dizer, apenas: “oh...!”, e repetir todos os elogios que críticos e professores já fizeram a José de Alencar: o principal nome do romantismo brasileiro, nosso primeiro grande romancista, enfim, estamos falando “apenas” do Patriarca da Literatura Brasileira.

Mas também podemos esnobar o sujeito: por que nos interessaríamos por uma estátua, isto é, por um cara que escreve como se estivesse no século XIX, enquanto nós nos encontramos no começo do século XXI? De fato, uma das maiores qualidades de Alencar, no seu tempo – a habilidade descritiva – hoje há quem considere defeito, chegando a “pular” aquelas longas descrições. “Coitado”; ele e seus primeiros leitores não conheceram nem a televisão nem o cinema.

Se o leitor escolheu pegar a lata de spray em casa e pichar as barbas do Alencar, certamente nem está lendo esse texto – e talvez nem seja um leitor. Mas se o leitor sentiu alguma curiosidade pela estátua, vamos defender que ele não fique apenas no “oh...!”. Porque essa estátua é viva; ela não apenas falou um dia, como continua falando, através dos livros que ainda lemos. Se a estátua é viva, merece respeito – e respeito não significa só elogio vazio. Respeito implica atenção crítica.

Por isso, dentro do objetivo da Coleção Novas Seletas, com respeito e com prazer apresentamos uma seleção de textos de José de Alencar. Para os alunos do ensino médio e fundamental, não se trata de um autor desconhecido: mesmo que dele nada se tenha lido, o aluno normalmente já ouviu falar em seu nome. Por isso mesmo, este volume pode não parecer novidade, se afinal de contas trata-se de um clássico da literatura brasileira.

Entretanto, faz parte da definição de “clássico” a seguinte afirmativa: a obra que, com o passar do tempo, não cessa de surpreender as sucessivas gerações. Também se pode definir “clássico” como: a obra que pode ser relida várias vezes e pela mesma pessoa, ao longo da sua vida, oferecendo-lhe a cada vez uma nova surpresa e uma nova perspectiva. Nesse sentido, a obra de José de Alencar é, sem dúvida, clássica, “pedindo” para ser lida e relida.

Por exemplo: enquanto relíamos os seus romances para organizar esta Seleta, nos surpreendemos redescobrindo, emocionados, livro que tínhamos lido no início da nossa adolescência, “sem o professor mandar”. Tratava-se de O tronco do ipê. Não apenas vivenciamos emoções, tragédias e ideais muito fortes, como ainda nos sentimos vivenciando, fortemente, nossa própria adolescência.

Alguns críticos de José de Alencar disseram que, nele, tudo é exagero, o que não deixa de ser parcialmente verdade. No entanto, exatamente por isso, ele pode ser ótimo. Franz Kafka já afirmara: “quem exagera, super-vê”. Referia-se à necessidade de ampliar a verdade para, de fato, conseguirmos enxergá-la. A literatura, nessa lógica metafórica, pode ser compreendida como um microscópio psicológico (quando se debruça sobre a personalidade de um personagem), ou ainda como um telescópio social (quando procura mostrar um panorama do seu tempo).

Mas aqueles que querem saber mais sobre a obra do escritor José de Alencar encontrarão, ao final da Seleta, comentário um pouco mais detalhado. Cabe agora apresentar alguns de seus textos e trechos, para que o leitor tome contato com a sua palavra. Como o escritor foi de tudo um pouco – advogado, jornalista, deputado, Ministro da Justiça, polemista, dramaturgo, e romancista – apresentamos, nos trechos que se seguem, um pouco de teatro, um tanto de romance (primeiro os romances urbanos, depois os de temática indígena), textos jornalísticos e políticos, bem como, entremeando os próprios textos, reflexões do autor sobre a sua literatura.

Com as senhoras e com os senhores, portanto: José de Alencar.