A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A Ficção de Deus
     

A FICÇÃO DE DEUS

Frei Betto

 

Gostei muito do que você considera, segundo a generosa dedicatória em meu exemplar de A ficção de Deus, um “exercício de encantamento”. Seu texto é ágil, consistente, límpido, desprovido de academicismos e recheado de saborosa erudição. Li com muito proveito, ainda mais vindo de um “ateu suave”, como você se define.

Ao escrever-lhe, faço-o por gratidão. Não me move a mínima pretensão de rebater seu excelente ensaio. Fico aqui agarrado à minha fé, que tanto bem me tem feito. Duvidar de minha relação com Deus seria algo assim como duvidar do amor que une você e Gisele. Quando escreve que Gisele “abalou e abala” seu coração, isso é experiência inquestionável por outrem. Mas quando acrescenta “e abalará o meu coração para sempre” isso é fé no amor (ou, na minha ótica, no Amor).

O amor, como a fé, extrapola a razão. É um mistério. Segundo a fé cristã, é Deus. “Quem ama conhece a Deus”, diz a Primeira Carta de João. E na tradição semítica conhecer equivale a experimentar. Curioso que João não afirma quem conhece a Deus ama... Quantos têm fé e, como você ressalta no livro, praticam e praticaram tantas atrocidades em nome dele!

Algo nos une: sou parcialmente ateu, não creio no deus de muitos crentes. Nem no deus de papas fundamentalistas, do ópio do povo de Marx e dos ateus ferozes que o combatem. A via de minha fé infelizmente não foi abordada em sua obra: a dostoievskiana. “Ainda que me provassem que Jesus não estava com a verdade, eu ficaria com Jesus”, disse ele.

Tentei explicitar isso em meu romance Um homem chamado Jesus (Rocco). Penso que Jesus não veio fundar uma nova religião nem mesmo uma Igreja. Veio semear as bases de um novo projeto civilizatório, baseado na justiça e no amor. Praticar isso é o que importa. Crer na divindade dele é secundário. Porém, por não duvidar da coerência de Jesus é que comungo a fé que ele transmitiu no Pai e Mãe de Amor e no Espírito Santo.

Os valores que ele vivia e pregava, como as vias da felicidade (nesta vida!) elencadas no Sermão da Montanha (sobre as quais acabo de lançar pela Planeta Oito vias para ser feliz), são valores meramente humanos, aos quais ele imprimiu ressignificação divina.

Se Deus é ficção, comungo a de Jesus. Complementada pela dos apóstolos: de que ele ressuscitou. Você que é professor de literatura e conhece como se constrói um personagem, talvez concorde comigo que parece um pouco estranho que os evangelistas, ao criarem a ficção ressurrecional (o crucificado vencendo a barreira da morte e irrompendo simplesmente como... Deus!), não tenham revestido o personagem de um corpo glorioso, numinoso, esplêndido.

O que temos nos evangelhos é um ressuscitado faminto (onde quer que ele apareça, a primeira pergunta é se há algo para comer...), e que ainda traz no corpo marcas de tortura e pregos, nas quais Tomé pôs as mãos...

Literalmente não parece um contrassenso? Por isso julgo que os evangelistas descreveram um fato objetivo, como o casal de São Paulo que, semana passada, teve o carro prensado entre dois ônibus e saiu inteiro, com leves escoriações, de dentro de um monte de ferro retorcido. Quem vê o carro não acredita que, dali, saiu alguém vivo.

Perdão, eis meu espírito catequético avivado por esses tempos natalinos.

Gustavo, você deve ter notado que Machado de Assis, recusando a extrema-unção, está repetido no livro, páginas 51 e 116. Isso já me ocorreu. Costumo dizer que o ideal seria que os leitores tivessem acesso aos nossos livros a partir da 2ª edição...

Pensei muito que livros enviar-lhe para expressar minha gratidão. Decidi por estes dois: A obra do artista, uma vulgarização científica paralela aos seis dias da Criação no Gênesis, e meu mais recente romance, Aldeia do silêncio, nesses tempos de intensa verborragia mais virtual que real.

A você e Gisele, meu abraço de muito feliz 2015! Amizade e paz,

São Paulo, 31/12/2014.


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