A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A Ficção de Deus
     

Rainer Guldin und Gustavo Bernardo

BUCHPRÄSENTATION

Rainer Guldin

Goethe Institut, São Paulo, em 25 de novembro de 2014

Guten Abend meine Damen und Herren!

Es freut mich sehr, hier im Goethe Institut von São Paulo zu sein und das neue Buch von Gustavo Bernardo kurz einführen zu dürfen. Ich kenne Gustavo seit nun bald fünfzehn Jahren. Wir haben uns über das Werk Vilém Flussers kennengelernt, ein Buch in drei verschiedenen Sprachen dazu veröffentlicht und uns immer wieder getroffen, in Brasilien, der Schweiz, Deutschland, der Tschechei und den USA. Ich habe Gustavo Bernardo als äußerst originellen, zutiefst ironischen und sprachgewaltigen Autor und zugleich als sehr guten Freund kennengelernt. Ein weiterer Grund mich über den heutigen Abend zu freuen.

Um eine minimale Mehrsprachigkeit sicherzustellen, werde ich meinen kurzen einleitenden Vortrag auf Deutsch führen und von Zeit zu Zeit aus dem Buch zitieren.

Im Prolog des Buches legt der Autor eine Piste, der ich hier nachgehen will.

Desse modo, chego a meu tema: a ficção de Deus. Ao abordá-lo creio ter chegado ao ponto final (espero que culminante) da sequência de ensaios que escrevo sobre a relação entre a literatura e a filosofia. Reconheço de saída a ambiguidade do tema, se a expressão “a ficção de Deus” carrega ao menos três sentidos: a ficção de Deus construída pela humanidade; o personagem Deus das obras de ficção; a ficção da humanidade construída pelo próprio Deus. Exploro os três sentidos. No primeiro, Deus é uma invenção do ser humano. No segundo, Deus é um personagem da ficção. No terceiro, nós é que somos uma invenção de Deus. Os três sentidos não são excludentes. Em qualquer dos casos, não defendo nem que Deus seja uma mentira nem que nós mesmos sejamos uma mentira de Deus, se entendo a ficção como um campo além da mentira e da verdade.

Diesen drei Lesarten möchte ich eine vierte hinzufügen. In diesem Buch geht es nicht so sehr darum nachzuweisen, ob es Gott gibt oder nicht gibt. Weder das eine noch das andere ist letztlich auf logisch völlig befriedigende Art und Weise möglich. An die Existenz Gottes zu glauben ist eine Wahl, die jeder für sich allein treffen muss. Auch derjenige, der Gottes Existenz vehement verneint, glaubt letztlich an etwas: an dessen Nicht-Existenz. Und selbst der Agnostiker, der von sich behauptet, nicht zu wissen, ob es nun Gott gibt oder nicht gibt, glaubt an etwas: an die Unmöglichkeit sich für die Existenz oder gegen die Existenz Gottes zu entscheiden. Es bleibt der Skeptiker. Im Gegensatz zum Agnostiker, versucht dieser sich in der Schwebe des Zweifels und der letztlichen Ungewissheit zu halten. Er schwankt zwischen Anerkennung and Ablehnung.

Dieses Schwanken zwischen Argumenten gegen und für die Existenz Gottes ist auch die prägende Struktur des Buches und der einzelnen Kapitel. Kaum hat man sich von einer Reihe scheinbar stichhaltiger Argumente überzeugen lassen, dreht der Autor den Spiess um und argumentiert für die gegensätzliche Meinung, auf ebenso überzeugende Weise. Das Buch thematisiert nicht nur, sondern inszeniert die Haltung des Skeptikers. Dieser stete Wechsel der Perspektive erinnert an Vilém Flussers Schreibtechnik. Diese dient dazu den Zweifel am Leben zu erhalten. Woran aber glaubt der Skeptiker? An die Skepsis und den Zweifel. Keiner scheint, ohne Glauben auszukommen, ob er es nun weiss oder nicht.

Slavoj Zizek, que se apresenta como ateu, observa autocriticamente que em torno do território acadêmico deve-se fingir não crer, porque “a admissão pública da crença é experimentada quase como algo desavergonhado”. O gesto da dúvida exige que se duvide também de si mesmo. Para Zizek, ninguém escapa à crença: “todos nós, secretamente, cremos”. Cabe-nos o esforço de suspender momentaneamente as próprias crenças, para melhor pensar. Precisamos suspender a crença de que cremos bem como a crença de que não cremos. A oscilação inevitável entre a descrença e a crença se equilibra em outra oscilação - aquela que se dá entre a razão e a emoção.

Der angesagte Tod Gottes hat neue Götter hervorgebracht: den Fortschritt, die Wissenschaft und die Kunst. Die Adepten dieser neuen säkularisierten Formen von Religion sind sich meist ihres Glaubens nicht bewusst, ja sie würden solch eine Vorstellung auf die entschiedenste Art und Weise von der Hand weisen.

Aber zurück zur vorgeschlagenen vierten Lesart von Gustavo Bernardos Buch. In diesem Buch geht es letztlich darum, so scheint es mir wenigstens, den Begriff der Fiktion bis an seine letzte Grenze auszuloten und die Existenz oder Nicht-Existenz Gottes dazu benützen, dieses Experiment durchzuspielen. Wenn man sich kurz die philosophischen Essays von Gustavo Bernardo, die sich mit dem Thema der Fiktion beschäftigen anschaut, ergibt sich so etwas wie eine Steigerung, nicht so sehr in einem linearen Sinne, sondern eher im Sinne einer Denkspirale, bei der sich Realität und Fiktion gegenseitig umwinden und durchdringen wie eine Doppelhelix.

Auf 2002 „A duvida de Flusser”, folgten 2004 “A ficção cética”, 2006 “Verdades quixotescas”, 2008 “Vilém Flusser: uma introdução”, 2010 “O livro da metaficção“ – übrigens, das Buch von Gustavo, das mir persönlich am meisten gefällt –, 2011 “A filosofia da ficção de Vilém Flusser” und “O problema do realismo de Machado de Assis”. Der tschechisch-brasilianische Philosoph und Kommunikologe Vilém Flusser und der brasilianische Schriftsteller Machado de Assis werden auch in „A ficção de Deus“ an verschiedenen Stellen diskutiert und dadurch auch einander im Zeichen der Fiktion angenähert.

Gustavo Bernardos skeptische Lesart der Welt löst Gegensätze auf, bringt klare Verhältnisse spielerisch durcheinander und konjugiert die Beziehungen zwischen den Begriffen neu. Vernunft und Glaube, Vernunft und Wahnsinn, Fiktion und Realität schliessen sich nicht mehr gegenseitig aus.

Glaube und Fiktion finden im positiven Sinne zueinander:

 ... equivalho crença a ficção, positivando ambos os termos ...

Wer heute noch glaubt, wird als unvernünftig angesehen. Dabei ist die Vernunft selbst eine Form des Glaubens.

Em Ortodoxia, G. K. Chesterton não opõe razão e fé, ao contrário, as aproxima, a partir de lógica parecida: “a própria razão é uma questão de fé. É um ato de fé afirmar que nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade”. 

 Die Imagination ist eine Vorbedingung des Glaubens, aber keine Vorstufe zum Wahnsinn.

Chesterton defende a imaginação, condição da crença: “a imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão.”

Die Imagination schützt uns vor dem Wahnsinn der Vernunft.

A loucura deriva da pretensão absurda de conhecer a verdade toda para enfim dominar toda a realidade. A imaginação nos protege dessa loucura porque ela de saída admite que não conhece e não pode conhecer a verdade, que não domina e não pode dominar a realidade. Por isso, elabora ficções substitutivas e alternativas. Por isso, inventa, narra, conta histórias. Ora, se admito a necessidade vital dessas ficções substitutivas e alternativas, preciso admitir a necessidade vital das crenças e, em consequência, da crença em Deus.

Der Skeptiker glaubt an den Zweifel, weil dieser die Fiktion schützt:

... a dúvida (é) a condição sine qua non da ficção.

Der Skeptiker kämpft gegen einfache Überzeugungen, gegen den Commonsense und, und das was man „political correctness“ nennt:

o cético honesto luta para que a sua dúvida não se transforme em certeza – certeza, por exemplo, de que Deus não existe ou de que já morreu. A certeza acaba com a dúvida e com o ceticismo.

Der Skeptiker glaubt nicht nur an den Zweifel, sondern auch an die schöpferische Kraft der Fiktion.

A ficção não se opõe à verdade, como a mentira, mas todo o contrário: a ficção intensifica, fortalece e valoriza a realidade. Para ser mais preciso: a ficção recupera a admiração perante a realidade. Essa admiração muitas vezes é chamada de “entusiasmo”, palavra que originalmente significa: sentir um Deus dentro de si. A admiração entusiasmada não permite nem que se entenda a ficção como contrária ou inferior à verdade e à realidade, nem que se conceba a ficção de Deus como contrária ou inferior ao Deus dos que creem.

Gustavo Bernardo, und das ist das Spannendste an diesem wunderbaren Buch, nimmt stets eine bewusst ambivalente theoretische Position ein. Dies verhindert eine eingeengte Sicht, ermöglicht es auf Widersprüche einzugehen und fördert vor allem einen möglichen Dialog zwischen Gläubigen und Nicht-Gläubigen, zwischen denen die an Gott glauben und denen die nicht an Gott glauben. In Zeiten der zunehmenden Spannung zwischen religiösem Fundamentalismus einerseits und einer aufgeklärten, toleranten, letztlich aber richtungslosen Form des Lebens andererseits ist ein Buch wie das von Gustavo Bernardo dringend nötig. Es definiert die Fiktion als einen Ort jenseits von Lüge und Wahrheit, an dem ein Dialog zwischen unversöhnlichen Gegnern noch möglich ist.

Lassen mich mit einem Zitat abschliessen, das die provozierende Denkweise dieses Buches in verdichteter Form vor Augen führt.

Reitero: a ficção, para mim, não é algo negativo mas todo o contrário: trata-se de algo extremamente positivo – digamos, condição da minha existência. Na verdade, vejo Deus como o espanhol via as bruxas, antigamente: não creio nele, mas que ele existe, ah, ele existe... Quando me lembro de frase atribuída a Jorge Luis Borges: “a teologia é uma ciência curiosa: nela tudo é verdadeiro, porque tudo é inventado”. Um ateu racionalista talvez lesse essa frase como irônica, mas a tomo pelo seu valor literal, se de fato um escritor de ficção a formulou. Na teologia tudo é verdadeiro, sim, sem ironia, e precisamente porque tudo é inventado.


APRESENTAÇÃO DE A FICÇÃO DE DEUS
Rainer Guldin


Boa noite, senhoras e senhores!

Estou muito contente por estar aqui no Instituto Goethe em São Paulo, convidado para apresentar brevemente o novo livro de Gustavo Bernardo.

Conheço Gustavo há quase quinze anos. Nós estudamos juntos a obra de Vilém Flusser e juntos escrevemos um livro em três idiomas diferentes, nos encontrando e nos enfrentando no Brasil, na Suíça, na Alemanha, na República Tcheca e nos Estados Unidos. 

Vejo Gustavo Bernardo como um escritor altamente original, profundamente irônico e eloquente, e também como um grande amigo, o que é mais um motivo para me alegrar nesta noite.

Para garantir nosso corriqueiro multilinguismo, vou fazer minha breve palestra introdutória em alemão, com citações em português a partir do livro.

No prólogo do livro, o autor apresenta uma pista que eu busco aqui: 

Desse modo, chego a meu tema: a ficção de Deus. Ao abordá-lo creio ter chegado ao ponto final (espero que culminante) da sequência de ensaios que escrevo sobre a relação entre a literatura e a filosofia. Reconheço de saída a ambiguidade do tema, se a expressão “a ficção de Deus” carrega ao menos três sentidos: a ficção de Deus construída pela humanidade; o personagem Deus das obras de ficção; a ficção da humanidade construída pelo próprio Deus. Exploro os três sentidos. No primeiro, Deus é uma invenção do ser humano. No segundo, Deus é um personagem da ficção. No terceiro, nós é que somos uma invenção de Deus. Os três sentidos não são excludentes. Em qualquer dos casos, não defendo nem que Deus seja uma mentira nem que nós mesmos sejamos uma mentira de Deus, se entendo a ficção como um campo além da mentira e da verdade.

A estas três leituras eu acrescentaria uma quarta. Este livro não nos dá evidências sobre se Deus existe ou se Deus não existe. Nem uma opção nem a outra é, em última instância, possível de forma lógica e plenamente satisfatória. Acreditar na existência de Deus é uma escolha que cada um tem de fazer por si só. Mesmo aquele que nega a existência de Deus com veemência, em última análise, acredita em alguma coisa: acredita em uma espécie de não-existência. Mesmo o agnóstico, que afirma não saber se Deus existe ou não existe, acredita em alguma coisa: a impossibilidade de decidir sobre a existência ou contra a existência de Deus.

Resta-nos o cético. Em contraste com o agnóstico, ele tenta manter a suspensão da descrença e da incerteza final. Ele vacila entre o reconhecimento e a rejeição. Esta vacilação entre os argumentos a favor e contra a existência de Deus é também a estrutura formativa do livro e dos seus capítulos. Assim que o leitor se convence de uma série de argumentos aparentemente sadios, o autor vira o jogo e defende o ponto de vista oposto, de forma igualmente convincente. O livro não apenas aborda, mas encena a atitude do cético. Essa mudança constante de perspectiva lembra a técnica de escrita de Vilém Flusser, que pretendia chegar à dúvida viva. Mas no que acreditam os céticos? No ceticismo e na dúvida. Ninguém parece sobreviver sem alguma fé:

Slavoj Zizek, que se apresenta como ateu, observa autocriticamente que em torno do território acadêmico deve-se fingir não crer, porque “a admissão pública da crença é experimentada quase como algo desavergonhado”. O gesto da dúvida exige que se duvide também de si mesmo. Para Zizek, ninguém escapa à crença: “todos nós, secretamente, cremos”. Cabe-nos o esforço de suspender momentaneamente as próprias crenças, para melhor pensar. Precisamos suspender a crença de que cremos bem como a crença de que não cremos. A oscilação inevitável entre a descrença e a crença se equilibra em outra oscilação - aquela que se dá entre a razão e a emoção.

A morte anunciada de Deus trouxe novos deuses: o progresso da ciência e da arte. Os adeptos dessa novas formas seculares da religião geralmente não têm consciência de sua fé, portanto eles não percebem como o seu pensamento também anda na contramão.

 Mas voltemos à quarta leitura que estamos propondo do livro de Gustavo Bernardo. Este livro, em última instância, explora o conceito de ficção em sua fronteira final, usando a existência ou não-existência de Deus para jogar através deste experimento. Se olharmos os ensaios filosóficos de Gustavo Bernardo, veremos que eles pensam a questão da ficção não num sentido linear mas sim através de uma espiral progressiva, na qual realidade e ficção se entrelaçam e se penetram mutuamente como uma dupla hélice.

Isso acontece em "A Dúvida de Flusser" (2002), seguido de "A Ficção Cética" (2004), "Verdades Quixotescas" (2006), "Vilém Flusser: Uma Introdução" (2008), "O Livro da Metaficção" (2010) - a propósito, o livro de Gustavo de que pessoalmente eu gosto mais -, "A Filosofia da Ficção de Vilém Flusser" (2011), e "O Problema do Realismo de Machado de Assis". O filósofo e comunicólogo tcheco-brasileiro, Vilém Flusser, e o escritor brasileiro Machado de Assis também são discutidos em vários pontos de "A Ficção de Deus" e, assim, dialogam com as personagens de ficção apresentadas.

A leitura cética do mundo de Gustavo Bernardo dissolve opostos e estabelece relações claras com o outro, brincando e conjugando essas relações entre os novos conceitos. Razão e fé, razão e loucura, ficção e realidade deixam de ser mutuamente excludentes.

A fé e a ficção encontram-se uma à outra de uma forma positiva:

 ... equivalho crença a ficção, positivando ambos os termos ...

 Quem ainda pensa não pode ser considerado necessariamente razoável. A razão é por si só uma forma de fé:

 Em Ortodoxia, G. K. Chesterton não opõe razão e fé, ao contrário, as aproxima, a partir de lógica parecida: “a própria razão é uma questão de fé. É um ato de fé afirmar que nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade”.

A imaginação é pré-requisito para fé, mas não a precursora da loucura:

Chesterton defende a imaginação, condição da crença: “a imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão.”

A imaginação nos protege da loucura da razão:

A loucura deriva da pretensão absurda de conhecer a verdade toda para enfim dominar toda a realidade. A imaginação nos protege dessa loucura porque ela de saída admite que não conhece e não pode conhecer a verdade, que não domina e não pode dominar a realidade. Por isso, elabora ficções substitutivas e alternativas. Por isso, inventa, narra, conta histórias. Ora, se admito a necessidade vital dessas ficções substitutivas e alternativas, preciso admitir a necessidade vital das crenças e, em consequência, da crença em Deus.

 O cético acredita na dúvida, por isto protege a ficção:

 ... a dúvida (é) a condição sine qua non da ficção.

O cético luta contra as crenças simples, contra o senso comum, contra o "politicamente correto":

O cético honesto luta para que a sua dúvida não se transforme em certeza – certeza, por exemplo, de que Deus não existe ou de que já morreu. A certeza acaba com a dúvida e com o ceticismo.

 O cético não acredita apenas na dúvida, mas também no poder criador da ficção:

A ficção não se opõe à verdade, como a mentira, mas todo o contrário: a ficção intensifica, fortalece e valoriza a realidade. Para ser mais preciso: a ficção recupera a admiração perante a realidade. Essa admiração muitas vezes é chamada de “entusiasmo”, palavra que originalmente significa: sentir um Deus dentro de si. A admiração entusiasmada não permite nem que se entenda a ficção como contrária ou inferior à verdade e à realidade, nem que se conceba a ficção de Deus como contrária ou inferior ao Deus dos que creem.

 Gustavo Bernardo, e isso é a coisa mais emocionante sobre este livro maravilhoso, sempre toma uma posição teórica deliberadamente ambígua. Isso impede que ele se feche em um ponto de vista estreito, lhe permite transitar entre contradições e promove um possível diálogo entre crentes e não-crentes, entre aqueles que acreditam em Deus e aqueles que não acreditam em Deus. Em tempos de crescente tensão entre o fundamentalismo religioso, de um lado, e uma forma iluminada, tolerante, mas em última análise sem rumo e sem vida, por outro lado, um livro como o de Gustavo Bernardo é urgentemente necessário. Ele define a ficção como um lugar além das verdades e mentiras, para que um diálogo entre adversários irreconciliáveis ainda seja possível.

Permitam-me concluir com um trecho que mostra bem, de forma condensada, a maneira provocativa de pensar deste livro:

Reitero: a ficção, para mim, não é algo negativo mas todo o contrário: trata-se de algo extremamente positivo – digamos, condição da minha existência. Na verdade, vejo Deus como o espanhol via as bruxas, antigamente: não creio nele, mas que ele existe, ah, ele existe... Quando me lembro de frase atribuída a Jorge Luis Borges: “a teologia é uma ciência curiosa: nela tudo é verdadeiro, porque tudo é inventado”. Um ateu racionalista talvez lesse essa frase como irônica, mas a tomo pelo seu valor literal, se de fato um escritor de ficção a formulou. Na teologia tudo é verdadeiro, sim, sem ironia, e precisamente porque tudo é inventado.


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