A FICÇÃO DE DEUS

Milton Torres

 

O premiado ensaio do professor Gustavo Bernardo é profuso no bom sentido da palavra: usa de fontes filosóficas, ficcionais, de roteiros e de diretores de cinema, de conferencistas, etc. – sem qualquer hierarquia. E é louvável não hierarquizar as fontes, valendo as mesmas pelo interesse do que aportam ao juízo do leitor.

A ficção e a ambiguidade – a anti-cartesiana ambiguidade – tem assento aqui. E não será, pois, difícil perceber que o ensaio examinará a DÚVIDA.

E assim inicia o capítulo que examina a DÚVIDA SUAVE, engenhoso qualificativo da dúvida não espinhosa, quase amena; ilustra-a a peça As Nuvens, de Aristófanes, para concluir-se pela potencialização das faculdades de Deus para segurança do próprio homem (p.33). E seguem-se pertinentes considerações sócio-religiosas. E a análise evolui para o exame da ficção em suas múltiplas relações, entre as quais o efeito mágico de recuperar “a admiração perante a realidade” (p.44). E o discurso envereda por G. K. Chesterton e Kierkegaard, para retomar o juízo da natureza superior, criativa e relacional da ficção, com o que encerra o capítulo. Sob esse prisma, não há qualquer capitis deminutio no postular-se a Ficção de Deus.

 

2. A DÚVIDA FEROZ

O capítulo inicia pela ficção de uma cidade onde não se diz mentira, nada se exagera, não há espaço para a ficção... Trata-se, pois, de um discurso tão ficto quanto os grandes textos fictos do Renascimento.

A matéria em apreço, extraída do roteiro de um filme, contado minudentemente, conduz, através de assumida e aceita mentira do mesmo roteiro, à criação da Religião. Trata-se aqui de caso de dúvida feroz, isto é, da que engendra a certeza, ou subjetivação absoluta de um juízo (p.58). E o medo à morte, princípio da religião, contrariamente ao que poderia parecer aqui, não é, pelo autor, objeto de ridículo, amenizado pelo amor humano. Há o subsídio, pois, da salvação pelo amor, como é lugar comum de obras literárias românticas e do Tristão e Isolda de Wagner.

Depois de umas tantas confrontações teóricas, de diverso grau corrosivo, em torno da existência e da natureza de Deus, operadas não poucas vezes por raciocínios silogísticos, o ensaio passa a tratar de Sebastien Faure, autor do tipo racionalista e igualmente silogístico, do início do século XX; o próprio título da obra, Doze Provas da Inexistência de Deus, já antecipa a sua filiação argumental. E enquadra-se, sem dúvida alguma, na família dos ferozes. Do discurso de Faure, há a ressalvar pelo menos esta passagem: “Há muito que o contrato social é inspirado num deus sem justiça”. Ora, o autor parece creditar a questão ao próprio Deus, que ele próprio, como autor, pretende negar. E, por outro lado, parece não atentar a que o contrato social é em verdade uma realidade social; e, que sendo social, durante todo o apogeu do capitalismo burguês e contratualista, o contrato foi o instrumento de opressão das classes privilegiadas sobre as demais, e dos Estados fortes sobre os fracos, sob a sacralização do princípio dos pacta sunt servanda. Pessoalmente, acho que a ótica correta do exame de toda a matéria religiosa não deva ser o exame lógico e dedutivo, como é corrente; mas trazê-la para o escopo das ciências antropossociais; não há que aplicar raciocínios silogísticos ao que é eminentemente social.

E seguem-se, no capítulo, agudas considerações sobre o maléfico The Reign of the Super-Man, conto editado em 1933, e reescrito em 1938, já como sátira e antítese do Übermensch nazista, assim encerrando-se o capítulo.

 

3. O ATEU FEROZ

Sob essa rubrica dá-se continuação à matéria, com a ressalva, todavia, de que a dúvida feroz, precedente, já não era mais dúvida, mas certeza subjetiva dos autores ferozes...

Assim, o terceiro capítulo elege os discursos da ferocidade máxima. Ainda aqui, é forçoso reconhecer que a ferocidade dos vários autores tem forte carga subjetiva, senão mesmo literária – de quem escreve e quer ser lido – como deparam os chamativos títulos das próprias obras elencadas.

Como é típico do ensaio de Gustavo Bernardo, recorre ele a múltiplas fontes – ensaios, textos filosóficos e jornalísticos, letras de música, roteiro de filmes, etc. -- de modo a não restringir o objeto do estudo ao formalmente erudito. Disso resulta mais variedade e uma espécie de democracia da informação.

Avultam, neste capítulo, Richard Dawkins, encarniçado inimigo de “todos os deuses”, e Sam Harris.

Dawkins, para a explicação da permanência – e mesmo expansão -- da fé ao tempo atual do progresso científico, utiliza o aporte da psicologia no tocante ao pensamento mágico infantil, avançando por Freud. O Deus da punição, típico do Antigo Testamento, a que o homem recorre pelo medo a castigos ainda maiores. De fato, certos profetas como Daniel ou Jeremias hão de atrelar o fiel pelo medo. E aponta o autor a contradição da divindade entre amedrontar e ser, ao mesmo tempo, poderoso e onisciente. É a tradicional análise lógica aplicada a matéria que não é lógica...

A página 91 do ensaio autoral, que associa com extrema habilidade o bíblico e o laico, o antigo e o moderno, traz à baila ainda outra intervenção, desta vez de Schwartsman, a qual convém transcrever. “O filósofo ateu Hélio Schwartsman, no interessantíssimo artigo “Culto a Mao”, lembra que o culto a Mao Tse-Tung, na China, “combina estátuas gigantescas e falsificação histórica com elementos religiosos, como reverências e orações, a despeito de Mao haver tentado abolir a religião no país. O fenômeno sugere que “a fé numa entidade sobrenatural e o fervor ideológico encontram-se muito mais próximos um do outro do que ambos os lados querem admitir”.

É de saudar a nota supra, de natureza sócio-histórica, que contrasta com as muitas posturas abstratas e dedutivas que temos visto; a matéria em epígrafe é viva e cheia de vezos culturais.

Samuel Harris também pode vergar ao apelo racionalista (como naquela parte da sua Morte da Fé, ao afirmar que a “ideia de que qualquer uma das nossas religiões representa a palavra infalível do Único Deus Verdadeiro exige uma ignorância enciclopédica da história, da mitologia e da arte,...” (p.98, último parágrafo); é. de novo, um caso de análise lógica, a mesma que se fazia nos ginásios do meu tempo, como se o fenômeno complexíssimo da linguagem pudesse ser reduzido a uma análise lógica. Mas não deixa de assentar, algures, que embora as pessoas religiosas “não sejam em geral loucas, suas crenças fundamentais certamente o são”: fina observação, essa, de raiz antropossocial.

 

4. O ATEU SUAVE

O capítulo inicia com a análise do Huis Clos de Sartre e retoma Dawkins, Eagleton e Hitchens. Há uma boa passagem de Eagleton (p.107) de cariz abrangente e seminal; senão vejamos: “se a arte começa como religião, isso significa que a religião ainda se afigura uma forma de arte tanto quanto a arte se afigura uma variante da religião. Pensar Deus como um mero fabricante do mundo diminui tanto Deus quanto quem o pensa assim, creia ou não creia. Deus é nem uma entidade nem uma coisa nem um ser, mas sim a condição simbólica de possibilidade de todas as entidades, coisas e seres”. Atribui-se, pois, polivalência à imagem de Deus, com aberturas a várias notas antropossociais. Ponto relevante poderia, desde logo, ser acrescentado: que o próprio estamento tira partido dessa condição, ao associar a imagem do poder temporal ao sobrenatural, até a inseparabilidade dos mesmos, tal as representações murais de egípcios, babilônios, persas ou assírios, em que o poder temporal é subsumido no espiritual. E a iconografia bizantina formaliza com precisão quase monótona as imagens de Deus, da alta esfera religiosa e do basileu; o próprio Cristo na forma absoluta e universal do Pantocrator. E o tímpano das igrejas românicas, de que o mais notável seja talvez o de Moissac, no sudoeste da França, exibe aos crentes que por ali entram no templo, e logo acima de seus olhos, as agruras do inferno, para, só na parte superior da mesma lavra de pedra, acenar com as benesses e as dádivas do flóreo Céu do Cristo-Rei. E a associação da imagem do Cristo ao princípio da realeza era outra constante na iconografia.

A posição de Marx, por assaz conhecida, é examinada rapidamente no capítulo.

E, ainda outras vezes, o exame doutoral é finalista ou axiológico, como em André Compte-Sponville, mais preocupado com o espírito de tolerância e liberdade de crença entre os homens (último parágrafo da página 116).

 

SEGUNDO ATO: CONHECIMENTO

Posto aqui em negrito por obedecer à ênfase da própria edição, a falar, no resumo introdutório, no êxtase religioso que acompanha a epifania.

Com apoio textual de Joyce e de Clarice Lispector, entre outros, Gustavo Bernardo clarifica o conceito de epifania, a um modo sutil e claro. Ponto alto de todo o ensaio, remeto o leitor ao discurso autoral nos termos do próprio ensaio.

 

7. A ASCESE.

Na postulação de Nikos Kazantzákís, Deus, na sua aparição, não é transcedente ao homem. Mas a imanência da epifania não é pacífica, não é dada pela Providência; é de algum modo conquistada pelo sujeito por esforço seu. E propicia-o, conforme o próprio Kazantzákis, a ascese. A velha ascese, anterior ao próprio cristianismo e por este absorvido e adaptado, na forma natural, por exercício espiritual do sujeito, na forma punitiva da carne, que pode ir à castração. Quase tudo isso a contar com a plena, ou quase plena, chancela social. Houve também a ascese pressuposta, através da emasculação, o que explica o alto índice da castração sacerdotal em Bizâncio.

 

 8. O SAGRADO.

O texto inicia, entre outros pontos de interesse e de excelente imagética, com o excesso (espacial e metafísico) de Deus e a dificuldade de apreendê-lo; e nada melhor para a visualização da metáfora a escultórica de Miguel Ângelo.

Entra em seguida em considerações sobre o Deus-Moira (Destino), em que a não-inteligibilidade da historização individual é, ou parece, incompreensível. Seria isso o exercício absoluto da mão de Deus, a revolver o universo misterioso do indivíduo? É o mesmo princípio que frequenta Santo Agostinho, ao reconhecer a plenitude da escolha que Deus faz de cada um, independentemente da sua virtude? Pois o Deus-agostiniano é anti-biográfico na eleição do indivíduo, ou assim parece aos demais.

 É óbvio que tal proposição desenvolve difícil relacionamento com o princípio do livre arbítrio. – Ficaria o bom exercício do livre arbítrio desautorado?, e ineficaz para a salvação?

De qualquer modo, sabe-se muito menos do fogoso universo do cristianismo africano (cirenaico, em particular) e extremo-oriental (Síria até Edessa, na Alta-Mesopotâmia). Agostinho, em Hipona, no norte da África, lido e relido, não deixa de chocar-se – quero crer – com a evolução racionalista do cristianismo romano até e além de Santo Tomás.

E assaz compreensível que tais proposições possam levar o crente ao estado de insegurança e de verdadeiro terror. E passa o ensaio a examinar o Deus do Velho Testamento; também neste a consagração do mistério, que, atribulando a cognição, acende o terror.

E finaliza-se o notável capítulo nos termos que transcrevo: “Se Deus compreendido é menos do que Deus, a ficção inteiramente decifrada e explicada é menos do que ficção”.

E pode-se também ter que o embargo (na verdade insolúvel) à plena cognição de Deus e de seus desígnios acrescenta à sua perpetuidade entre os crentes.

 

9. A APOSTA

Em sequência à análise de umas tantas situações colhidas ao Velho Testamento, o ensaio contempla o seguinte juízo, à pag. 163: “A palavra ´sacrifício´ mescla as palavras ´sagrado´ e ofício. O sacrifício é o ofício sagrado por definição. Sacrificar significa fundar o espaço sagrado. A religião implica sempre algum tipo de sacrifício, que por sua vez implica a necessidade de dar prova da fé em Deus--...” A nota é, pois, de fina tessitura antropossocial.

Iniciando por Pascal, o ensaio passa a examinar série de argumentos sobre a existência e a inexistência de Deus. Não sendo a prova cabal (para os que aceitam essa dúvida), colocando-se a escolha pessoal teísta ou ateísta, das quais decorrem vantagens e ônus meticulosamente examinados.

 

10.O MAL

As páginas iniciais do capítulo examinam a predicação de Deus, o bem e o mal. E em certo ponto (pág. 177) volta-se ao já conhecido Terry Eagleton: “evil is thought to be uncaused, or to be its own cause. This, as we shall see, is one of the several points of resemblance with good. Apart from evil, only God is said to be cause of himself”.

Penso que, quanto qualquer pessoa associada à visão histórico-social das religiões, não possa endossar as palavras do Professor Eagleton. Todos os pressupostos do seu raciocínio são do modelo dogmático-religioso (ou anti-religioso: pouca diferença faz, idêntico o raciocínio), como “evil is thought to be uncaused, or to be its own cause”, only God...... the cause of himself”. Não passa, por um tal posicionamento, a mais leve brisa do social, do psicológico, do histórico; nada é lembrado, aqui, da luta por espaço econômico, por êxito social, por espírito de competição, de apropriação da coisa do mais fraco pelo mais forte. Trata-se de universo de absolutos abstratos e teológicos.

E fique, todavia, claro que a responsabilidade do segmento transcrito é do próprio Professor Eagleton, que, pelo que dele se depreende, tanto poderia ser um ateu quanto um fervoroso e dogmático cristão.

O capítulo investe, ainda, por considerações de muito interesse, a que me permitiria endereçar o leitor.

 

11.A GNOSE.

Assim dispõe o ensaio à página 192: “O gnosticismo é um movimento cristão atuante nos três primeiros séculos da nossa era e mais tarde considerado herético pela igreja. Alguns o consideram a mãe de todas as heresias. Variantes gnósticas postulam que Deus existe, sim, mas é um Deus ainda inacabado que precisa de nós para compreender a si mesmo e, quem sabe, para enfim, ser.”

A parte final da transcrição parece-me de particular alcance, pois, furtando-se aos conceitos absolutos de Deus, colocam-no em perspectiva histórica: Deus a completar-se com a leitura humana. A evolução milenar do cristianismo, através de concílios, dissenções (heresias, do ponto de vista de uma leitura hierarquizada e disciplinadora), breves papais (para o catolicismo) reflete uma evolução histórica que não é possível ignorar. E essa mesma leitura redesenha Deus dentro de certos limites, limites talvez mais largos do que faria pensar uma leitura sincrônica.

A leitura diacrônica do Deus católico, o lusitano em particular, mostra, em outros traços, a influência do poder laico sobre a religião. Dom João III, através de sua política autoritária e centralizadora, ajoujou a Igreja ao Estado. A Mesa da Consciência e Ordens, que teoricamente atendia aos problemas de consciência do soberano, foi, entre outros, um dos instrumentos para formatizar a Igreja lusa aos interesses e prioridades do Estado. E assim correu o sistema até o fim do Antigo Regime – o padre ordenado e, depois da extinção da Companhia de Jesus por Pombal, o padre secular, sequazes funcionários de escol a serviço do estamento.

 

12. À LETRA.

O capítulo trata com atenção da peça de Saramago sobre os anabatistas, ademais de outros discursos teatrais de reconhecido interesse.

A violência dos anabatistas e dos católicos em Münster, divulgada, inclusivamente, pela ópera de Meyerbeer, talvez tenha contribuído para a investigação mais detida do movimento através da Europa. O anabatismo não é homogêneo, indo do confronto social às classes senhoriais, até formas sofisticadas, decorrentes da percepção de que Estado e religião constituída podem molestar, ou mesmo impedir, a boa prática do espiritual, fim último do homem na Terra. É curial que Estado e Religião encontravam motivo para combater os anabatistas, mesmo os não radicais.

E seguem-se várias considerações críticas ao culto de imagens. Páginas, ademais, sobre a hermenêutica dos livros sagrados.

 

13. A FICÇÃO.

Remeto o leitor ao denso capítulo em apreço. Dele me ocupo de uma só passagem, aquela que trata da forma aparentemente anômala do verbo SER, isto é, a que cala sobre qualquer qualidade atribuível ao sujeito. E, interessado quanto sou naquelas formas da linguagem simbólica do poder, do poder absoluto no caso, estabeleço as poucas notas abaixo.

 

Êxodo 3: 13-15

13. Moisés disse a Deus: “Quando eu for aos filhos de Israel e disser: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’; e me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, que direi?”

14. Disse Deus a Moisés: “Eu sou aquele que é.” Disse mais: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘EU SOU me enviou até vós”.

15. Disse Deus ainda a Moisés: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob me enviou até vós. Este é o meu nome para sempre, e esta será a minha lembrança de geração em geração. (edição da Bíblia de Jerusalém)

 

Há longuíssima exegese bíblica respectivamente à anômala predicação do verbo SER como aqui empregada. A aparente tautologia da primeira expressão (ser o que é) e, ainda, “EU SOU me enviou”, o que parece, pela elipse, entender-se, retroativamente, como “aquele que o Pai enviou”, o Filho, afinal, subsumido no Pai, o que resulta, somado à primeira expressão, ser Deus único e absoluto, atemporal e igual a si mesmo. E o Deus absoluto está fora do tempo, ou é o seu próprio tempo (não o tempo do homem), ou é todo o tempo.

Mas pode-se, agora, e para isso contribui a secular parenética cristã, pensar que essa passagem da Bíblia não deixa de ter relação semiótica com o estatuto real (mesmo que não pertença explicitamente à sintaxe do poder real). E isto pela ideia da atemporalidade ou perpetuidade a que almeja o poder real. O rei absoluto é perfeito, a tudo provê, e a escolha da sua pessoa vem de Deus... E o processo de diferenciação que existe em todas as entidades sociais é maior no estatuto real, seguido talvez da alta esfera religiosa, que, mais das vezes, compõe o real. O rei – e apenas ele -- se pluraliza sintaticamente em formas como, Nós, o Rei... Não é, pois, de minimizar o universo simbólico que, pelas mais diversas formas, inclusive a ficta diferenciação da linguagem, aproveita ao estatuto real.

 

TERCEIRO ATO: FICÇÕES

 

14. DEUX EX MACHINA

Usando de imagens dos filmes de Woody Allen, o ensaio avança sobre a metaficção da criação de um Criador, de que a personagem Cecília não pode prescindir. Quando ela própria pergunta a seu interlocutor cinematográfico se ele não acredita em Deus, é na presciência de que só poderá receber um sim. E transcrevo, pelo seu relevo, o que fica dito à página 238: “A imagem da vida como um filme é bastante comum a partir do século XX, embora inverta a mimese tradicional: filmes é que se deveriam parecer com a vida e não o contrário.”

Mas é justamente a apontada inversão mimética apta a assegurar a notável presença do cinema no espaço cultural e afetivo do homem desta época.

 

15. DEUS É UM CENTAURO

O discurso examina a dúvida sistemática de Descartes, base epistemológica da ciência moderna.

E um excelente prólogo de Saramago diz da mágica dos seres mitológicos a meio homem e a meio animal, e da insolvência dessa mesma condição. E segue-se a recusa desse mistério pela cultura cristã, o que talvez pudesse ser dito, da substituição desse tipo de mistério antigo, mais ostensivamente biológico, pelo mistério cristão; o mistério cristão quase sempre finalista diante do incipit de um ethos.

A função literária cresce perceptivelmente nesta parte. E há oportuno encômio ao politeísmo, nos termos de que “talvez possa dar conta muito melhor da complexidade dialética do mundo e do ser humano no mundo” (p. 255). A julgar do conjunto das páginas precedentes, parece tratar-se daqueles mitos helenizados, e tão múltiplos, os quais, por tão bem atenderem ao eros da cultura cristã-ocidental, nunca esta os abandonou...

 

16. DEUS IRÔNICO

O capítulo examina em minúcia o romance The End of the Affair, de Graham Greene, ao qual remeto o leitor.

 

17. DEUS É BRASILEIRO.

Remeto, outrossim, o leitor ao abrangente exame que faz o capítulo do notável romance de Rubem Fonseca O Seminarista. E me atenho apenas ao título do capítulo, por que tenho pessoal aversão e a respeito do qual fiz poema satírico.

A frase Deus é Brasileiro desculpa as não poucas mazelas da nossa vida social e política desde os quinhentos.

Somos os herdeiros do desmanche que os descobrimentos portugueses infligiram a Portugal e seu império. O império marítimo desfigurou o país e, a longo prazo, impôs-lhe saldo negativo.

Dom João III, levado pelas circunstâncias, embargou o que restava das relativas liberdades populares, herdadas da Idade Média, por regime autoritário e centralizador. Foi Alexandre Herculano quem primeiro percebeu esse fenômeno.

As grandes fomes do país são do tempo daquele monarca, também as hordas de crianças de rua, cujos pais pereciam na aventura da Índia; a mesma Índia em que, no inverno, os marinheiros desocupados ficavam a esmolar à porta das igrejas de Goa. A censura, direta ou indiretamente, clausurou o teatro social de Gil Vicente e inspirou a Sá de Miranda a notável passagem poética:

 

 A medo vivo, a medo escrevo e falo,

 Hei medo do que falo só comigo,

 Mas inda a medo cuido, a medo calo.

 

Pois a Mesa da Consciência e Ordens, criada por Dom João III em 1532, subjetivava enormemente a autoridade do rei sobre a demais legislação.

Assentou-se, por instrumentos legais e sociais, o primado do poder executivo. Não houve em Portugal nenhuma representação coletiva, como na Grã-Bretanha, que pusesse em cheque o personalismo dos Stuarts, ou, na Holanda, dos príncipes de Orange.

No Brasil, o poder central tem podido muito; pôde, institucionalmente, pela introdução do Poder Moderador na Carta Imperial de 1824; e tem podido pela prática social e laxação dos órgãos de controle, o que acaba por ser, também, lassidão social. E pode, pela possibilidade quase infinita de distribuir benesses.

Assim, só fictícia e ilusivamente, Deus é brasileiro.

 

18. DEUS É O PADEIRO.

O complexo e minucioso conto, no meu entender, deve ser consultado na íntegra, no ensaio; ou lido.

 

19. DEUS É O NARRADOR.

Também não li o romance da canadense Nancy Houston, que põe Deus como imediato narrador. Examinado com a mesma e geral proficiência das demais peças, só me cabe remeter o leitor à leitura do ensaio autoral e do próprio romance.

 

20. DEUS É E NÃO É.

Cinjo-me, aqui, a Guimarães pessoa e literato.

Conheci-o, eu ainda jovem. Eu, Terceiro-Secretário, a trabalhar no terceiro piso do Anexo do Itamaraty, ainda no Rio; ele, Embaixador, no mesmo andar, Chefe, por escolha e comodidade próprias, da Divisão de Fronteiras. A propósito, quando se pleiteava algum questão de fronteiras, deslindava-a [não estou a fazer trocadilho...] com a maior proficiência.

Mas Guimarães Rosa era um mistério, mistério pessoal maior até que o artístico.

Deu-me algumas caronas de carro; por vezes cantarolava, coisa que nunca fazia em trabalho. E umas poucas vezes acompanhei-o em súbitas entradas em armazéns, que começavam, à época, a chamar-se despudoradamente supermercados.

Passeava pelos corredores até fixar-se nalguma parte em que houvesse produtos nativos e algum empregado igualmente nativo. Puxava conversa. Certa vez, ouvi-o perguntar se tinham rabo de porco só a meio com sal... O rapaz, intrigado, pediu por mais explicações. Rosa comprou nada; só queria coletar a resposta!... E, na sua mesa de trabalho, no Itamaraty, havia arquivo em que anotava formas inusitadas de dizer as coisas, arcaísmos, regionalismos, outras particularidades. O que transformava na inovadora, e que erudita, prosa sua. Pois a escrita de Guimarães Rosa é cúmulo da mais lídima écriture artiste. E refiro o que nem sempre ouço dizer dele: tinha excelente ouvido – prosa soante, nunca a pesar inutilmente os conetivos.

A estreita canoa, à página 325 do ensaio, é a canoa autoral; nela não cabe mais ninguém. E o rio é a metáfora de Heráclito.

 

Copacabana, janeiro de 2016.
e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com