A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A Ficção de Deus
     

A DÚVIDA DE DEUS
Marcela Santos


A Ficção de Deus se tornou um dos meus livros favoritos. Dentre todos os livros já lidos, este foi um dos que mais falaram comigo, que mais me levaram a repensar questões as quais eu nem considerava mais. Num nível pessoal, pude repensar não só religião mas minha capacidade de acreditar, na repressão que às vezes faço em relação a tudo que idealizo e sonho, tudo que os outros julgam de alguma forma desnecessário, inferior por seu caráter ficcional. A meu ver, a vida sem uma dose de sonho, de impossível (ou ao menos improvável), de poesia, enfim, sem magia como a de um Mágico de Verdade, não vale muito a pena. 

Pensando Deus em si, uma abordagem cética à sua existência ou inexistência me faz sentir mais sincera quanto a minha própria crença, ou melhor, quanto a minha própria dúvida. Duvidar do sim e do não é a única forma honesta de me referir à forma como me sinto hoje. 

Explico. Fui criada desde criança na Igreja Presbiteriana. Sempre tive algumas questões e dúvidas que eram sempre explicadas por “Não podemos compreender porque a existência de Deus está além das nossas noções.” Ou alguma variação disso. Nesses primeiros anos de vida tinha muita fé, acreditava porque me parecia natural, ainda não era algo passível de questionamento. Acreditei em Deus plenamente e essa relação era tão real pra mim quanto com qualquer outro membro da família. 

Com o tempo, contradições dentro do ambiente da igreja me fizeram me afastar e essa fé de antes se desgastou. Comecei a refletir por mim mesma, ler sobre o assunto e refletir. Percebi que toda a lógica ia contra tudo aquilo que antes parecia aceitável, suficiente. Neste momento parei de me dirigir ao Senhorsilencioso, passei a declarar, quando questionada, que não acreditava em nada. 

No entanto, de alguma forma minha fala parecia (a mim mesma) artificial. Eu não acreditava, num nível mais profundo, quase inconsciente talvez, no que estava dizendo. Não era verdade que não acreditava em nada. Não era verdadeiro o meu não categórico. E da mesma forma pareceria artificial afirmar que acreditava. Desde então, vivo no meio fio. O sim e o não parecem mentiras. Lendo A Ficção de Deus, descobri que a única verdade possível pelo que sei, pelo que vivo e conheço, é o talvez.

Como pessoas racionais, lógicas, iluminadas e sensatas, não acreditamos nem em fadas nem em bruxas – todavia, algo em nós sabe que tanto fadas quanto bruxas existem. Existem na nossa memória afetiva. Existem como símbolos vitais e necessários. Existem de maneira muito mais intensa e mais forte do que muita pessoa de carne e osso que supostamente conhecemos.

Às vezes sinto necessidade de falar com Deus e penso que talvez esteja falando comigo mesma. Mas não por isso esse diálogo de olhos fechados é menos necessário. Falo no mínimo com algo que existe em mim que exige essa comunicação. Ignorar esse impulso me aproxima de uma tendência à repressão de tendências internas, o que nunca pode ser bom. Não frequento mais a igreja e não voltaria a freqüentar. Não posso falar pelo futuro, aprendi que a vida muda de formas tão bruscas que mesmo pelo dia de amanhã não posso atestar com certeza. Mas, tal como sou hoje, não acredito mais na instituição, mas acredito n’Ele, em algum grau. Acredito na possibilidade de Deus estar ou não em algum lugar em mim, no mundo ou além dele. Compreendi que não sou capaz de renegar aquele que foi meu primeiro amor platônico, minha primeira aposta, a ficção original. 

Os personagens de ficção detêm o poder de existirem e não existirem ao mesmo tempo.

Acredito e preciso acreditar sem realmente acreditar. É um elo como dos personagens que foram meus melhores amigos, nos unicórnios, no fantástico, no intocável e invisível a olhos abertos. Ao negar que uma parte de mim acredita, nego minha capacidade de crer. Para alguém que ama e passa grande parte de sua vida se relacionando com criações da mente de outras pessoas, as tomando para si e criando suas próprias, é quase vergonhoso simular uma certeza que não possui. Eu creio no que transita ao meu redor sem que eu possa atestar, fotografar, tocar.

Quase poderíamos dizer: Deus é o não-nome grandiloquente do próprio Inconsciente.

Durante a minha primeira leitura de A Ficção de Deus, esta música se repetiu incessantemente na minha mente como um eco: 

Would you please take me away from this place
I cannot bear to see the look upon your faces
And if there is some kind of god do you think he's pleased
When he looks down on us I wonder what he sees
Do you think he'd think the things we do are a waste of time?
Maybe he'd think we are getting on just fine
Do you think he's skint or financially secure?
And come election time I wonder who he'd vote for

Estes são alguns versos da canção “Him” do segundo álbum da cantora inglesa Lily Allen. A música sempre me tocou muito pelas questões (com uma boa dose de sarcasmo) sobre a possível existência de um deus e de que ele seria feito, que imagem teria de nós. A composição é frequentemente vista simplesmente como uma crítica. Eu vejo mais as perguntas de uma pessoa magoada e ofendida pela falta de respostas. Expor o ridículo, explorar as contradições não significa um simples repúdio. É a fala de alguém que quer entender. Que precisa entender. Perguntas que temos todos que acreditamos de alguma forma pelo menos na possibilidade ou que gostaríamos de receber respostas que tornassem a dúvida em certeza, para sim ou para não.

Ever since he can remember people have died in his good name
Long before that September
Long before hijacking planes
He's lost the will he can't decide
He doesn't know who's right or wrong
But there's one thing that he's sure of this has been going on too long

Lily fala de um deus que também não sabe. A humanidade lhe fugiu ao controle. Ele se parece conosco e está imobilizado. Quando escuto, me sinto feliz e triste, percebendo que eu mesma tenho ou tive perguntas assim (ela usa o humor e vai além, mas quem não gostaria de saber mais sobre esse pai tão distante? de que bandas ele gosta? está acima das nossas questões e se sim, até onde somos parecidos com ele?) e sabia que não poderia realmente as fazer ou pelo menos que não obteria respostas.  O próprio conceito de fé tem raízes na dúvida. Deve-se crer sem poder saber onde se pisa. É um tiro no escuro. A mim a vida já parece longa demais para defender certezas. A resposta final dá o assunto por encerrado. Uma certeza pode durar um dia, uma infância, mas a dúvida é sempre mais forte, o enigma, o talvez.

Do you think he'd drive in his car without insurance?
Now is he interesting or do you think he'd bore us?
Do you think his favourite type of human is Caucasian?
Do you reckon he's ever been done for tax evasion?
Do you think he's any good at remembering people's names?
Do you think he's ever taken smack or cocaine?
I don't imagine he's ever been suicidal.
His favourite band is Creedence Clearwater Revival.

A Bíblia tem histórias que me interessam muitíssimo, provocam reações apaixonadas como tenho em relação a romances de Dickens ou nosso Machado. Jacó, por exemplo, sempre foi um personagem que me desagradou profundamente. Não gostava de Lia e não se importava com os sentimentos da esposa, apenas lutando para poder obter aquela que realmente amava: Raquel. Não gostava dela, mas queria muitos descendentes, então o desprezo pela esposa não o impediu de conceber seis filhos e uma filha com ela. Filhos pelos quais não demonstrava afeto algum. Restava claro que eles não eram o que ele esperava. Quando enfim pôde se casar com Raquel, demonstrava explicitamente aos outros filhos que amava verdadeiramente José e os preteria explicitamente. Ele próprio semeou o ódio que levou os outros a pensarem em matar José e, persuadidos por Judá, amenizar a “pena”, vendendo o jovem como escravo. Isso para não mencionar as concubinas Zilpa e Bila. José e sua história, por outro lado, era um dos meus favoritos. São personagens interessantes. É claro que ignoro aqui os costumes da época e o aspecto histórico, mas recebi essas histórias quando criança e só o que me importava era que Jacó me parecia um pai horrível. Vejo valor ficcional imenso nessas passagens. É uma pena que os próprios cristãos abdiquem com tanta freqüência da leitura do livro que rege a religião que seguem, preferindo a interpretação de vozes que crêem serem mais “autorizadas”. Sob essa ótica, o esforço da Reforma parece desperdiçado - mas essa já é outra questão.

A razão do temor a Deus se explica: aquele que nos criou pode perfeitamente nos descriar, ou seja, nos eliminar. Na história, Deus perde de novo a fé na humanidade – no Antigo Testamento ele perdeu essa fé várias vezes – (...)

É interessante que, quando criança, não realmente percebi esse Deus irascível. Talvez pelo fato de aprender sempre que Deus era meu pai, que me amava e me ouvia, por ter uma fé muito forte e experiências predominantemente positivas na igreja (nessa fase), somente me relacionei com o que se apresenta no Novo Testamento. Não é que não conhecesse as narrativas do Antigo Testamento, mas parecia tudo muito obsoleto. Na minha cabeça, tudo havia sido resolvido com a vinda de Cristo. A relação de Deus com a humanidade já tinha sido sanada milhares de anos antes do meu nascimento. 

Descobri mais tarde este deus anterior. Ele veio com as experiências negativas e o amadurecimento. Aprendi com minha mãe, antes de qualquer outra coisa, que Deus era amor. Mas alguns entendem que Deus é intolerância, regras e patrulhamento. Culpa. Culpa de jamais ser bom o bastante, de viver e ter prazer em existir. Foi nesse momento que percebi duas coisas: era hora de me afastar da igreja. Foi iniciada uma fase de intensos e sucessivos questionamentos, raiva e culpa. Uma sensação de ter sido desperdoada por todas as minhas faltas. E todas as faltas que nem sabia quais eram. Eu duvidava e duvidava da dúvida. Parecia que mentia sempre e mentia principalmente para mim mesma. Mentia para aquele lugar em mim que falava com o impossível. Ao me afastar da igreja, vejo agora que me afastava da ficção de deus criada por um determinado grupo. Foi preciso abandonar essa ficção, literatura ruim, para preservar a minha capacidade de crer, ainda que esta já estivesse modificada.

Parto do princípio histórico de que toda a arte nasce da religião. Se o princípio é correto, toda religião é uma forma de arte e toda arte guarda consigo algo da sua origem religiosa. Toda pessoa religiosa vive dentro de um mundo encantado.

Exatamente! Eu percebi que todo o amor imenso que tenho pela literatura, pelo teatro, enfim, pela ficção e arte, este amor que me transporta para além do que eu sou no espelho tem raízes não só nos contos de fada e nos primeiros livros com quem me encontrei na infância. Não, os contos fantásticos vinham de mãos dadas com as historias da minha Bíblia Ilustrada (que tinha uma ilustração muito simpática da Arca de Noé na capa). Lembro do meu quarto iluminado por um abajour do Chico Bento e minha mãe me contando uma história: da Cinderella ou de José. Meu mundo de criança era uma explosão fantástica e minha imaginação nasceu ali. Minha busca incessante por mais histórias vem daquelas lembranças do abajour, da voz da minha mãe me contando histórias e do sono chegando.

Em outras obras suas já tinha lido sobre sua relação com igrejas: a emoção que comove quando vazias, o desconforto quando cheias. Gostei muito de ver este assunto desenvolvido. A Ficção de Deus me parece o espaço ideal, aliás, para fazê-lo. Chamou-me a atenção a menção à catedral gótica de Freiburg.

Justamente em Freiburg, há pouco mais de dez anos, passei por uma experiência quase epifânia: o professor Markus Schäffauer, que então morava na cidade, me fez subir a longa escada em espiral da catedral. Na subida da longa escada, passamos muito perto de dezenas de gárgulas maravilhosas, de tão horrorosas. Finalmente, nos posicionamos sobre um jirau. Esse jirau fica logo acima dos 16 sinos, todos eles gigantescos e medievais. Cada um dos gigantescos sinos pesa cerca de três toneladas. O mais antigo foi fabricado ainda no século XIII. Chego a tocar em um dos sinos com as minhas mãos.

Da torre dos sinos, contemplo extasisado a bela cidade de Freiburg, bombardeada algumas vezes e reconstruída outras tantas. Contemplo igualmente extasiado o interior da catedral construída há tantos séculos, impressionado por saber que ela nunca foi atingida pelas várias guerras que destruíram várias vezes aquela cidade.

De repente, sem aviso, os sinos começam a tocar. Do êxtase, passo sem transição a uma epifania tão maravilhosa quanto assustadora. O som é belíssimo, antiqüíssimo e altíssimo. Levo as mãos aos ouvidos, as lágrimas aos olhos. Sinto-me súbito transportado séculos para trás e, ao mesmo tempo, para dentro do mundo tão melhor da minha imaginação.

Reproduzi um trecho longo e grifei e pelos elementos que grifei você certamente já entende o porquê da menção dessa passagem. O faço não só por narrar uma experiência linda e ser um dos trechos mais belos e memoráveis do livro. Como sabe, Reviravolta é meu livro preferido. E esse relato me fez ver ainda mais encanto na história e, de quebra, me deu uma desculpa para relê-lo.

O poeta não acredita em Deus, já sabemos, mas o poema o leva a assumir a perspectiva do cético. Por definição, o cético não pode ser nem ateu nem crente. O cético põe em dúvida todas as afirmações dogmáticas, logo, duvida tanto de quem diz que Deus existe, quanto de quem diz que Deus não existe.

Mais uma vez, a leitura de uma obra sua me faz compreender melhor o ceticismo e me reescrever a partir dessa liberdade recém-adquirida. Proteger a dúvida é desfazer amarras, é respirar aliviado e ter liberdade para criar, modificar, demolir e refazer. É fugir de qualquer tipo de certeza sufocante, do fundamentalismo assassino. Eu hoje vivo melhor por buscar não as respostas, mas novas perguntas e brincar com elas, descobrir possibilidades. O resultado direto disso é desconfiar imediatamente quando deparo com qualquer coisa que pareça atuar como dogma. Não quero jamais me imobilizar novamente. A certeza cristalizada tende a conter qualquer tipo de movimento, a não ser os que se baseiam justamente no retrocesso. Sólida, essa certeza pode aparentar segurança. Mas a dita estabilidade tem um preço que considero alto: a repressão da instabilidade de ser. Sabemos que vamos morrer e pode parecer mais fácil pacificar a angústia existencial que decorre disso. 

Crer em Deus (seja este qual for) e saber pela vida (ou desgraça) eterna 

ou

Não crer e saber que a morte é o fim. 

Acontece que esses saberes são fabricados. Ninguém sabe de verdade. Mente-se para si mesmo de forma semelhante à qual eu mentia para mim mesma dizendo acredito ou não acredito. Vida e morte são mistério. Claro que se chega a conclusões através das dúvidas. Mas que pelo menos a conclusão não seja pilar e que esteja sempre aberta a uma nova análise. 

A dúvida cética, em particular, se mostra a condição sem a qual não há ficção. Como só podemos perceber o mundo com os nossos sentidos limitados e a partir de uma única perspectiva – nossa -, não podemos apreender a verdade toda mas apenas parte dela. Por isso, verdades do passado se tornam superstições para o presente enquanto hábitos de uma cultura são vistos como abominações por outra cultura. O reconhecimento de limitação tão forte e extensa justifica a suspensão do juízo, a não muito popular epoché que caracteriza a dúvida cética, (...)

Este trecho e o que vem a seguir, sobre os deuses mortos, obsoletos, ajudam a expandir essa visão limitada. Por que os deuses gregos, romanos, egípcios, astecas, nórdicos, entre tantos outros foram transformados em mitologia e o deus judaico-cristão e o livro que registra toda a mitologia associada à religião é visto como realidade pura? Porque é o deus do nosso tempo, acredito. Não sei tanto sobre ontem, não tenho ideia do que se sucederá no amanhã. Mas esse é o Deus que ficou. Como você menciona, não se atinge o mundo idealizado de nenhum dos lados: nem todos se convertem ao cristianismo (como termo genérico para as várias denominações) nem o mundo se seculariza. Deus não morreu. Um ideal morto não influenciaria não só pessoas, comunidades, mas Estados inteiros. Vive, vive sobre formas terríveis, inclusive. Até hoje temos que lutar por um Estado laico, aqui mesmo, no Brasil. Não há ninguém explodindo outras pessoas por Apolo. Ou por Ahura Masda (obrigada pela aula de história!). Enquanto os deuses superados viram mito, são cultura celebrada, uma parcela substancial dos fieis cristãos insistem numa leitura literal de nada menos que toda a Bíblia. Veja bem, uma leitura literal de um livro que muitos destes nem ao menos leram. Uma leitura literal feita por um pastor televisivo, talvez.

Outra questão que me interessou muito e que me lembro ter sido mencionada em aula por você no semestre passado é a da influência politeísta na Bíblia, especialmente em Gênesis, quando se fala da criação do mundo e na discrepância de temperamentos apresentados por Deus.  De fato, a religião cristã (novamente desconsiderando aqui as diferenças entre elas) sempre se apropriou de elementos pagãos e isso é bem visível por ter continuado a acontecer e a prática se manter ainda hoje. Na Idade Média, por exemplo, nas Cantigas de Santa Maria os trovadores usavam elementos do fantástico da mitologia celta convertendo-os em milagres. Acontece hoje com algumas denominações evangélicas neopentecostais que se apropriam de elementos de religiões politeístas africanas (as mesmas que eles condenam) em seus cultos. E, é claro, os santos católicos que não deixam de atuar como deuses menores. 

Lembro que quando estudava num colégio católico, meus colegas faziam catequese e uma amiga me disse que gostava mais de Nossa Senhora que de Deus porque se sentia mais próxima dela. Nós tínhamos uns 9 ou 10 anos, essa era a divindade que realmente a “representava”. Deus parecia distante demais. E aqui se encaixa perfeitamente a sua colocação de  que “A adoração aos santos e à Nossa Senhora parece uma maneira indireta, quase um jeitinho brasileiro, de chegar a Deus.” (p.203) Religiões politeístas tinham deuses a quem eram atribuídos determinados aspectos da natureza ou ideais como beleza, justiça ou guerra. Dentro da lógica do louvor aos santos, é ainda mais fácil que determinado grupo ou indivíduo se identifique com uma entidade correspondente à sua cultura ou necessidade particular. Temos padroeiros e santos associados a determinados grupos e questões (casamenteiros, das causas perdidas), fora os vários nomes para a Virgem Maria de acordo com suas aparições, cada uma com uma atribuição própria. Já na seção do livro dedicada aos ateus suaves, me chamou a atenção a menção a Alain de Botton e sua pesquisa sobre arte religiosa e rituais correlatos e a apropriação do cristianismo das boas idéias pagãs. 

A ficção não se opõe à verdade, como a mentira, mas todo o contrário: a ficção intensifica, fortalece e valoriza a realidade. Para ser mais preciso: a ficção recupera a admiração perante a realidade.

Professor, poderia passar séculos lendo seus textos relacionados ao papel, valor e espaço ocupado pela ficção. É um hábito cristalizado associar ficção à mentira, ao que não existe de verdade. Somente um cético poderia fazer uma defesa tão expressiva do significado dessa forma de expressão do real. A ficção como manifestação de verdade superior. (p.52) A ficção é parte do que vivemos, permite que a vida se expanda além do que se espera num dia comum, permite que se experiencie e conheça, de alguma forma, lugares e pessoas inalcançáveis de outra forma. Pontos de vista e mundos inteiros novos. E que por serem frutos da mente de outrem, tem raízes em algum recorte do que conhecemos por real, palpável. Se a própria verdade é um conceito tão abstrato, por que se pretende separar com uma parede o que na verdade se distingue apenas por um véu? Não sugiro, evidentemente, uma leitura literal da ficção. Mas uma leitura essencial para compreender as alegorias ali presentes, as possibilidades e através dessa experiência tocar a vida com um olhar diferente. A mim, por exemplo, a ficção (seja pela leitura ou através de filmes, peças ou séries de TV) ajuda a relativizar minhas preocupações e perceber a enormidade de universos ao meu redor. 

Através da ficção me interesso por outras culturas, me interesso por idiomas completamente diferentes do meu. Descubro que não sou só uma e procuro não me limitar ao que está ao alcance das minhas mãos. Pela ficção posso suspender meu juízo, pausar a vida um pouco e dar vazão à minha própria violência, instintos de auto-destruição e sonhos loucos. Os estudos relativos ao sono são unânimes quanto a necessidade de sonhar. Animais submetidos a testes que os impediam de sonhar literalmente enlouqueciam. 

Vejo aqui um paralelo com o ponto defendido por Chesterton (p. 45) e citado por você de que razão em demasia, e não a poesia, enlouquece. Precisamos sonhar acordados ou não, quanto mais sonho melhor. Acordo sem saber o que realmente sonhei, o que meu inconsciente procura e entre esses anseios metade escondidos, vou vivendo e sonhando acordada, completando os sonhos que só conheço pela metade. 

A loucura deriva da pretensão absurda de conhecer a verdade toda para enfim dominar toda a realidade. A imaginação nos protege dessa loucura porque ela de saída admite que não conhece e não pode conhecer a verdade, que não domina e não pode dominar a realidade. (p.46)

All work and no play makes Jack a dull boy….

A fé e a lógica

A questão da onipotência x benevolência me remete novamente às suas aulas na UERJ quando mencionava vez em quando o assunto quando analisando algum aspecto de um texto literário. É interessante, porém, que apesar de compreender e concordar com as linhas de pensamento estabelecidas expondo a impossibilidade lógica de um Deus onipotente e benevolente, não consigo anular pela razão algo que a transcende. Não realmente acredito, não realmente desacredito, mas o que vive no território da dúvida é justamente esse que não faz nenhum sentido, esse Deus que é incapaz de experimentar o medo e por isso mesmo não poder ser onipotente.

Se é preciso duvidar, talvez seja preciso duvidar também da dúvida feroz. Observando, por exemplo, que o próprio Deus não apenas admite a dúvida como ainda duvida ele mesmo e de si mesmo: quando Cristo, que é o Deus encarnado, pergunta no meio de sua agonia por que Deus o abandonou.

Quando penso na fé que já tive, lembro com ternura. Claro que reconheço o poder destruidor dessa fé quando manipulada por hipócritas que desejam usá-la como instrumento para obtenção de influência e poder. Igualmente – ou mais – perigosa quando usada como justificativa para aniquilar o outro. Forçar determinada crença não funciona, assim como tentar suprimi-la não tem nenhum efeito além de um sentimento de inadequação e angústia. 

No meio acadêmico, muitas vezes quem crê é hostilizado e isso me chocou bastante no meu primeiro período na universidade. Vi um colega ser ridicularizado por um professor durante a aula enquanto a turma ria. Ao meu ver, todos deveriam ter seu espaço. Não foi a única vez. Não me manifesto nessas situações porque não sigo nenhuma religião, não saberia o que dizer e nem sei se essas pessoas iriam querer que eu as defendesse. Mas me sinto afrontada quando um professor ri do meu colega evangélico e a turma acompanha. Podemos discutir, podemos relativizar, mas essa demonstração de suposta superioridade intelectual leva a que? 

O poder alienador de qualquer grupo

Recentemente, comecei a pesquisar entre grupos do movimento social e partidos de esquerda algum que defendesse ideais com os quais eu me alinhasse. Queria me fazer mais útil, participar de forma mais ativa de uma luta por um mundo melhor. 

É, eu sei que isso soa muito ingênuo. É, eu me decepcionei sucessivas vezes e a razão foi bem similar nos dois casos que ilustram melhor a experiência. A primeira vez foi com um grupo que defendia que não votássemos na eleição deste ano e se declara contra a farsa eleitoral e favorável a uma revolução. Eu achei a coisa toda muito curiosa e quis me informar melhor, entender o que seria essa revolução. Li, li e li mais um pouco. Não consegui entender qual seria o resultado da tal revolução, caso realmente as pessoas não votassem e ela acontecesse. 

Compareci então a uma plenária do grupo na UERJ. Embora todos falassem contra a farsa eleitoral, contra os partidos, as falácias e defendessem a revolução, continuei sem saber o que ela seria. Fiquei mais confusa ainda porque um rapaz que assim como eu estava indo lá pela primeira vez foi se apresentar. Ele disse que era anarquista e foi cumprimentado por isso por um dos integrantes da mesa que explicou que aquele grupo tinha membros comunistas e anarquistas. 

Esse foi o momento em que eu realmente desisti. Posso não ter lido tudo quanto deveria sobre comunismo e anarquismo, mas sei que uma revolução anarquista implicaria resultados bem diferentes daqueles obtidos em uma comunista. Além disso, a experiência me lembrava estranhamente um ambiente de igreja: desde se apresentar por ir pela primeira vez até as músicas em que eles irrompiam de vez em quando. As críticas que faziam ao sistema sem apresentar uma alternativa real, apenas um conceito solto de revolução foi outro fator que me desanimou muitíssimo.

Minha segunda experiência foi com um partido de esquerda com o qual já simpatizava. A atuação de membros do partido já eleitos e os discursos de outros que se candidatam se alinham muito com o que considero justo, correto. Continuo vendo essas pessoas positivamente, inclusive votei em vários deles. 

Meu problema maior foi com a militância. Novamente eu via esse aspecto religioso-fanático, onde críticas não eram aceitas. Numa mentalidade de massa, todos dizem as mesmas coisas e só falam de um mesmo assunto. Percebi que para ser aceita precisaria abdicar de muitas outras coisas importantes para mim e me desfazer de meu próprio julgamento em favor de um discurso pronto. Ainda ouvi que para se filiar ao partido era necessário ter uma base teórica sólida, que não era para qualquer um. Então para panfletar no hall da UERJ e por aí todos servem, mas para se filiar, só os mais iluminados. "All animals are equal, but some animals are more equal than others." O que eu via era uma doutrina a ser seguida, comportamentos esperados e novamente as musiquinhas a serem cantadas.

Por isso gostei muito do exemplo do torcedor ensandecido e do “Culto a Mao”, além da colocação de Schwartsman que relaciona “o cérebro do fiel ao do militante radical”. Claro que minhas experiências não chegam a esse ponto de fanatismo, mas apontam claramente nessa direção pelo desligamento da dúvida e da reflexão, ou seja, a anulação do eu.

Sobre a Cruz e Símbolos Cristãos

Gostei muito da exposição dos enfoques católicos e evangélicos da simbologia da cruz. Como já mencionei, quando era criança estudei em colégios católicos. Não por religião, mas por fatores como proximidade de casa e qualidade de ensino. Em duas ocasiões estive em instituições assim: a primeira no jardim de infância e a segunda já pela 3ª série (que creio se chamar 4º ano agora) em diante. Em ambas as vezes foi dito que não haveria problema no fato de eu não pertencer à religião. 

Mas a realidade é bem diferente e minha mãe percebeu isso pela primeira vez no dia em que, nessa primeira vez eu, aos cinco anos de idade, disse que ela era a melhor mãe do mundo – mas depois de Maria. Já na segunda vez eu era mais velha e rejeitava as imposições com mais autonomia – embora não com mais facilidade, pois as pressões eram constantes e diárias. Mas eis a questão central: eu sempre tive muito medo das imagens, principalmente de Cristo crucificado. 

Lembro de uma capela na escola que tinha uma cruz bem grande. Lembro principalmente do sangue, bem vermelho, escorrendo eternamente pelas pernas dele. Eu não gostava de ir até lá, mas volta e meia éramos chamados. Eu insistia que não era católica, mas davam sempre uma desculpa para me levar junto. Concordo, portanto, com a colocação de Dawkins sobre o símbolo ser cruel demais. Mesmo as imagens mais serenas me davam medo, principalmente se muito grandes. A de Cristo me dava arrepios. Talvez isso seja uma característica de alguém que não pertença a religião, talvez aos fiéis isso pareça mais natural. Na minha experiência enquanto presbiteriana, sempre vi a cruz vazia como símbolo não só da ressurreição como da espera pelo retorno de Cristo com a cruz vacante nos lembrando que ele havia triunfado sobre a morte e voltaria para nós um dia. Talvez por ter sido criada nessa religião me pareça mais natural. Vejo a cruz vazia como uma mensagem de esperança enquanto a outra traz a culpa, pecado e martírio. 

A Revelação

Preciso confessar que jamais havia problematizado a questão do comando de Deus a Adão sobre a árvore do conhecimento não ter chegado a Eva, ou se Adão transmitiu a ordem à mulher. Nunca havia sequer percebido. Agora me sinto quase ridícula! A questão da revelação não ter chegado a tempo de salvar milhões de pessoas que vieram antes é um argumento irrefutável a favor da religião como ficção. Como bem cultural de determinada civilização, de determinada era. O que encaro como mitologia hoje já foi lei um dia. O homem do século XXI se crê muito evoluído, mas quer buscar em Levítico argumentos que justifiquem sua própria intolerância. Vide o candidato à presidência Levy Fidelix, por exemplo, que confunde Bíblia e Constituição ao tentar explicar de onde tirou seu preconceito.

Erradicar a Religião  

Considerei a defesa de Sam Harris sobre a erradicação da religião tão intolerante quanto de fundamentalistas religiosos que procuram impor sua crença aos outros. É tentar passar por cima do outro, de sua experiência de vida e bagagem cultural tentar forçar nele a informação de que se acreditar em Deus será tachado de imbecil. Vamos extinguir então mitologias inteiras, contos de horror, folclore e o Papai Noel. Tudo que não for prático e real é desperdício. Ele tem todo o direito de não acreditar em nada e esse direito deve ser preservado. Mas o direito do crente também. É preciso que se tenha liberdade de crer em fadas e bruxas. Ou em centauros. Talvez em vampiros e lobisomens. Soa a mim como um discurso repressor e que se encaixa bem na definição de ateu feroz. 

Essencial a citação de Hélio Schwartsman que sustenta o direito de cada um defender o que acredita sem usar de violência para converter o outro a sua visão de mundo.

O Ateu Suave

A religião, entretanto, é muito menos uma explicação do mundo do que a representação simbólica de nossas dúvidas fundamentais.

Essa definição de religião serviria facilmente para a ficção também, reforçando seu argumento de que as duas estão entrelaçadas, que toda arte começa como religião. O conceito de fé, calcado justamente na impossibilidade de se provar que sim ou que não tem uma conexão muito forte com a ideia de suspender seu juízo para mergulhar numa história fictícia, se transformar num personagem e torcer por ele, se relacionar com outros e com os eventos e lugares ficcionais. As duas idéias exigem uma certa coragem de pular e uma certa segurança de saber que o pulo foi mental e que ainda estamos seguros no sofá de casa. Vejo muita poesia nesse mergulho e foi ele a primeira razão de querer fazer teatro: a entrega ao personagem, ao mundo dele. A facilidade de deixar o meu próprio para trás mesmo em meio a uma sala lotada e barulhenta. É uma espécie de transcendência.

Um Bálsamo

E é especificamente a colocação de Eagleton que você menciona que mais me agradou entre os teóricos e críticos citados nessa seção. Creio que ele sintetiza perfeitamente uma função que se posta sempre em vigor curaria em grande parte a doença fundamentalista:

“Uma leitura simbólica da Bíblia é capaz de enxergar na doutrina da Criação não um absurdo científico mas sim ‘um bálsamo para a arrogância humanista’. O mundo se torna menos o brinquedo da nossa irresponsabilidade e mais ‘uma dádiva que encarna uma alteridade incognoscível’.”

Ou seja, a ficção da Bíblia como, ora essa, ficção! E que interpretada traz um senso muito mais profundo da mensagem ali transmitida do que se lida como relato de algo que realmente se passou. Porque se são observados os símbolos e a partir deles se tenta interpretar a mensagem, naturalmente se tem um texto mais interessante e mais fácil para o leitor se relacionar. É difícil entender porque Deus era tão atuante, tão passional e depois tão mais equilibrado e distante. Se pudermos ler simbolicamente, mesmo as incongruências são mais bem aproveitadas.

Secularização e Individualismo

O caminho da religiosidade para o secularismo é obviamente mais racional, mas por isso mesmo é muito mais solitário. A razão analisa, logo, separa e divide: individualiza.

É curioso que tenha sido um senso de individualismo que tenha sido um dos principais fatores que me afastaram da igreja. Em qualquer grupo social me pareceria normal, quase que esperado, que as pessoas se movessem dentro de alguns ciclos predefinidos: grupos fechados (ou panelinhas), vaidade, insensibilidade ao sofrimento do outro. A gota d’água pra mim foi quando, por proximidade de casa e por outros membros da minha família terem um histórico naquele lugar, passei a frequentar uma Igreja Batista e não afirmo que todas sejam assim, não as conheço. Eu me refiro apenas àquela igreja em particular, à minha experiência terrível. Isso já entrando na adolescência. Embora as diferenças não sejam tantas na prática, temos uma muito grande no batismo. Enquanto na Presbiteriana este é feito por aspersão, na Batista se mantém a imersão. Há outras diferenças e eu realmente me alinhava melhor e sentia falta da Presbiteriana, mas quis me esforçar para me adequar ali por uma questão familiar. 

Nessa fase começou a associação de religião com culpa. As pessoas me ignoravam. Era constrangedor. Não sou a pessoa mais extrovertida do mundo, muito pelo contrário. Faço amizades no meu próprio ritmo, mas faço. Ali era impossível. As pessoas da minha idade, mesmo na mesma classe da Escola Dominical que eu, passavam por mim como se fosse invisível. Era humilhante. Eu não gostava dos cultos. Ficava contando os minutos para seu fim. Não gostava de lá. Mas me sentia culpada por isso e acabei sendo batizada ali. O que foi terrível para mim. Parecia-me que talvez a postura das pessoas mudasse se eu obtivesse o “status” (deveria haver tal coisa como um ‘status’ num ambiente que se diz acolhedor?) de membro da igreja. 

Pelo que eu já disse fica claro que isso não aconteceu. Ainda me sinto muito amarga quando me lembro do dia do batismo em si. Após este, as pessoas que haviam sido batizadas naquele dia recebiam um Bíblia da igreja das mãos de um membro mais antigo, que o abraçava e dava “as boas vindas”. Uma menina da minha idade foi incumbida de fazer isso comigo. Nunca me esqueci. Ela me entregou a Bíblia sem sequer olhar na minha cara e me deu um abraço, se é que se pode chamar assim. Foi mais um tapinha nas costas. E saiu o mais rápido possível. 

Estava bem claro que só o fez porque tinha que fazer. Mesmo na Presbiteriana muitas coisas me incomodavam como os já mencionados status dentro da igreja, cargos, por exemplo, que resultam em um oceano de vaidades. Sempre havia uma determinada família mais popular, enfim, mas aquela foi a gota d’água. Essa visão crítica só adquiri depois que desisti da instituição por completo. Após o fiasco do batismo durei pouco ali e me senti enfim no direito de parar de ir. Nunca soube porque isso era assim, nunca soube o que fiz para ser tratada daquela forma. Mas sei que o pastor sabia disso, muitas pessoas sabiam disso e ninguém jamais fez nada até que eu parasse de ir. Havia sempre uma preocupação muito grande em enviar auxilio aos missionários na África e nenhuma em realmente enxergar o “irmão” (risível ser chamada assim por pessoas que me desprezavam) logo ao lado. 

Para encerrar essa crítica, lembro de mais um evento que me fez deu certeza de que precisava escapar daquela igreja. Bem nessa época em que frequentava a Batista, fui com minha mãe à uma livraria dessa mesma denominação na Praça da Bandeira. Nem me recordo mais o que ela queria comprar, mas a questão é que eu estava com uma camiseta do Harry Potter. 

Um funcionário da livraria simplesmente pegou um livro com uma coruja na capa e um título sensacionalista que basicamente explicava porque criancinhas que liam a saga de J.K. Rowling iriam para o inferno. Ele me entregou o livro sem dizer uma única palavra. Eu senti que ele queria praticamente me exorcizar ali. Poucas vezes na vida a palavra ridículo pareceu tão adequada ao que quer que seja. Minha mãe ficou revoltada, é claro. Ela sempre achou isso tudo uma grande bobagem, essas teorias de conspiração, fanatismo. Falou com ele, perguntou qual era a ideia de fazer isso, se era a intenção me fazer sentir mal, e se ele defendia então suprimir qualquer tipo de personagem, se todos eram símbolos terríveis. Ele disse que sim e recomendou outros livros falando mal de desenhos da Disney e do Bob Esponja. Jamais voltamos lá.

Nessa época percebi, aliás, experienciei o que era intolerância, fundamentalismo e vi que realmente precisava de um tempo. Nunca mais quis voltar e não me vejo voltando hoje em dia porque o Deus que eu não sei, esse do qual duvido sempre não é esse que quer que eu seja um robô. Talvez seja mesmo minha própria criação e não quero que outros, quanto mais pessoas tão pequenas e pretensiosas, influam nela.

Sendo assim, acredito que o ideal da religião cristã deveria ser outro. Aproximar, transcender, unir. Principalmente quando se pensa no Novo Testamento e em tudo que Jesus defendia, o ideal era tolerância e amor. Mas na visão torta de alguns (muitos) o ideal é controlar. E pra isso já temos tantas vozes na sociedade, das que posso fugir, eu fujo. 

Ainda sobre essa questão de Cristo, lembro que minha mãe criticou na igreja (Presbiteriana) essa ideia que alguns crentes têm de que vinho é algum tipo de bebida superior e “permitida” porque Cristo bebia. Ela argumentou que ele bebia vinho porque era a bebida popular na época, e que se Cristo vivesse nos dias atuais e no Brasil, beberia cerveja em um boteco. Claro que isso causou muita indignação. Mas ora, Jesus era criticado justamente por andar e pregar para aqueles que eram marginalizados, vistos como a escória. Ele era chamado de comilão e beberrão. Ou seja, não era sommelier.

E todo o povo que o ouviu e os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, justificaram a Deus.

Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele.

E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes?

São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.

Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio;

Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores.

Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.

Lucas 7:29-35

Não sei se este é mais um caso de dificuldade de interpretação dos textos bíblicos ou pura desonestidade intelectual.

O amigo imaginário necessário

Outros intelectuais preferem ver todo dia miniaturas de escritores, atores e cineastas como Virgínia Woolf, Charles Chaplin e Alfred Hitchcock. De minha parte, me vejo mais próximo à infância perdida e coleciono estatuetas de ursos polares: de porcelana, de madeira, de cristal, até mesmo de osso de caribu. Elas ficam em lugar de honra, no centro da minha estante de livros. Em qualquer dos casos, de Deus Pai a meus ursos polares de porcelana, trata-se de amigos imaginários, claro – porém necessários.

É curioso que só após ler esse trecho percebi a quantidade de amigos imaginários que tive quando criança. Sempre fui uma criança muito só: filha única, de início morava longe da escola e quando passei a morar meus amigos é que moravam longe. Seja como fosse, passava mais tempo com minhas Barbies, livros de histórias e adultos do que com outras crianças. Já mais velha, me parecia estranho que, ao contrário de muitas crianças, mesmo aquelas com irmãos, eu nunca tivesse tido amigos imaginários. 

Percebi, lendo esse trecho, que sempre os tive. Os personagens dos desenhos que via sempre, muitas vezes dizendo as falas junto com eles: Mulan, Hércules, Cinderella. As Barbies mesmo, que ganhavam vida nas minhas mãos (e que graças a Toy Story eu acreditava ser possível que ganhassem vida principalmente sem mim) e que eu levava onde fosse. Os personagens das historinhas que eu gostava de escrever. Os personagens das histórias que eu ainda escrevo, escrevo muito e sem mostrá-los a ninguém. 

Quanto a esses primeiros amigos na infância, depois os substituí por escritores que admirava e personagens mais... complexos? Além disso meus adorados Lou Reed e Bowie. Seja como for, pelo seu texto acredito que temos todos nossos símbolos e espelhos não só do que somos, mas de como nos vemos e de como queremos (ou queríamos) ser. Às vezes sinto saudade de determinado personagem e preciso reencontrá-lo, seja revendo um filme ou relendo um livro. Como já disse anteriormente, talvez Deus tenha sido o primeiro desse amigos que não vejo propriamente, mas intuo e que por isso mesmo, preciso deles muito mais do que alguns que passam pela minha vida num plano mais objetivo. Preciso mais deles porque são feitos de sonhos, expectativas e porque sei que nunca vão me abandonar. Sei que o ar que eu respiro é deles também. 

Crença x Saber

Entre nós, uma pessoa religiosa crê que Deus exista, um ateu crê que Deus não exista e um agnóstico duvida de ambos. Para o filósofo [André Comte-Sponville], o religioso que afirma saber que Deus existe é nada menos do que um fanático fundamentalista e, portanto, sem meias palavras, um imbecil. Dentro do mesmo raciocínio, o ateu que afirma saber que Deus não existe é fundamentalista também – e, portanto, e também sem meias palavras, esse ateu é tão imbecil quanto o religioso. O problema se encontra antes na certeza, isto é, na postura dogmática.

Tive uma aula recentemente sobre apresentações de trabalhos acadêmicos em que a professora levou para a turma assistir trechos do filme “God is not Dead” onde um professor de filosofia exige que a turma toda assine um papel que diz que Deus está morto, ou seja, que não existe, para que possam frequentar o curso. A razão da professora levar este vídeo não foi o tema, mas para que analisássemos a defesa e postura de um aluno que se recusa a negar a existência de Deus e é desafiado pelo professor a fazer palestras que provem o ponto que defende. 

Evidentemente, a discussão em sala teve que entrar no campo do tema em si porque o tema influenciou muito na forma como o rapaz reagiu. Alguns mencionaram o fato de ele estar muito nervoso na apresentação. Eu os lembrei que não era possível analisar realmente se a postura dele era “academicamente aceitável” (sim, este termo foi usado!) ou não porque não era um nervosismo natural, mas decorrente do fato do professor antagonizá-lo o tempo todo, debochando dele e de sua defesa. Alguns achavam a postura do professor inverossímil. É claro que o filme é recheado de melodrama e no final o rapaz convence a todos os seus colegas que se levantam e repetem: God is not dead. 

Mas novamente eu discordei. Não quanto ao resultado final, mas da questão do professor. Muitos discordaram, mas os lembrei que no meio acadêmico, muitas vezes você é considerado um imbecil se assume ser religioso, principalmente se cristão. Essa é tida muitas vezes como uma “questão superada”. Eu sei disso porque observo no dia a dia. Uma colega concordou que isso acontece no meio acadêmico, mas que fora desse ambiente, são os crentes (incluindo aqui qualquer pessoa religiosa) que tentam muitas vezes impor sua visão aos outros. Eu concordo que isso acontece, é verdade. Mas mesmo fora do meio acadêmico temos também ateus ferozes – fundamentalistas até. 

Durante uma das defesas do garoto, uma colega dele suscita The God Delusion de Dawkins e é claro que durante todo o vídeo e discussão em sala eu só pensava no livro de Gustavo Bernardo e em todos os argumentos de um lado e de outro, as soluções fáceis encontradas por ambos os lados e suas contradições. Muito do que o garoto falou caiu nesse terreno de soluções fáceis de serem quebradas, outras foram mais bem fundamentadas. Mas dois pontos foram interessantes: no final, a raiva que o professor tem dele, raiva essa que na verdade era da ideia de Deus e Deus em si, é observada e exposta pelo aluno: 

- Why do you hate God so much? 

- Because He took everything away from me. 

E o aluno encerra com a pergunta: How can you hate someone that doesn’t exist? – é claro que a explosão do professor é exagerada pelo caráter clichê e melodramático do filme, mas o raciocínio nem tanto. Ele era fundamentalista, intolerante e se sentia muito incomodado com os argumentos do aluno, que melhoravam a cada apresentação. O garoto diz que o que o diferencia do professor é que ele não deseja impor sua visão. Não almeja converter seus colegas. Quer apenas que eles tenham o direito de escolher, de duvidar. O professor, pelo contrário, queria impor sua crença ou descrença, seja como for. 

O final é muito óbvio e parcial, mas a argumentação foi muito interessante. Qualquer tipo de fanatismo resulta em opressão e isso não deve nem pode ser aceito numa sala de aula, quanto mais numa turma de filosofia. Isso, no entanto, acontece. Uma amiga advogada, conta que teve um professor de direito penal que em muito se assemelhava a esse professor, mas não em sua posição de ateu, mas de militante de esquerda. Um aluno se declarou de direita na primeira aula e o professor passou a persegui-lo por isso até que ele desistiu e trancou a disciplina. Tenho sérias questões em relação a direita (o que foi esse festival de loucuras que surgiram pela internet nos últimos tempos?) mas a postura do professor neste caso era inaceitável. Por isso é tão importante esse trecho do livro que expõe a diferença entre crer e saber e porque é elementar jamais misturar os dois.

Catarse

Por um momento tomamos emprestada a identidade do personagem, já que a nossa identidade se nos revela frouxa e fragmentada enquanto a do personagem se mostra compacta e inteiriça. Desse modo, “a paixão pela literatura é também uma maneira de reconhecer que cada um somos muitos, e que dessa raiz, oposta ao senso comum em que vivemos, brota o prazer literário”. O reconhecimento de que cada um somos muitos ajuda sobremaneira a fundar a religião, que também começa pelo terror e termina na piedade: primeiro me apavoro quando Deus me expulsa junto com Adão e Eva do seu paraíso, depois me comovo com a ágape cristã, isto é, com o amor sem exclusividade, com o amor por todo mundo.

O reconhecimento de sermos muitos, a questão da identidade é um tema recorrente que me fascina profundamente. O assunto me atrai porque a ideia de se definir, se identificar, sempre me pareceu muito sufocante. Num determinado dia de um determinado ano, com uma idade qualquer se declara ser isso ou aquilo, gostar de uma coisa ou de outra e isso tem que se tornar um pilar do que se é. Não parece fazer muito sentido. É claro que precisamos de alguns símbolos e percepções mais ou menos estabelecidas do eu para que se possa amar essa pessoa e, portanto, defendê-la do mundo. Se eu não me conheço não posso me amar. Mas se conhecer não deveria ser visto como sinônimo de se definir estaticamente. A mudança é boa e natural porque a vida é longa demais para prender a respiração num pequeno recorte do que se é, do que se pode vir a ser. O personagem, seja literário ou cinematográfico, não vive os vários dias vazios em que não há nada de bom ou ruim que se faça lembrar. O dia dele não dura 24 horas (a não ser que sejam 24 horas incríveis!) e acima de tudo: esses vários conjuntos de horas agrupadas de 24 em 24 não são engradados de existência para o personagem. Por isso precisamos dele, porque vive nas folhas de papel (ou nas 2 horas do filme, com tudo que não serve omitido) aqueles momentos que, sejam muitos ou um só, estarão sempre lá para se reviver. Enquanto os meus se dividem entre o esquecimento, o que eu pagaria para esquecer e lembranças alegres convenientemente retocadas pela minha vontade inconsciente e incontrolável. 

Também preciso fugir da prisão do eu. Preciso sempre, preciso muito. Eu preciso da ficção para ter os pés no chão, para não minguar, não desaparecer. Para continuar no real que não raro deixa faminta a minha necessidade de ir além do que eu nem imagino o que seja. Só para não perder o hábito, cito mais um trecho brilhante (e tem horas que é impossível não se rasgar em elogios) de A Ficção de Deus:

Não sei, por exemplo, quem sou. Ao longo da vida, apenas rascunho o personagem de mim mesmo, rascunho este que deve permanecer borrado e incompleto, sem permitir quaisquer certezas.  

Se é preciso preservar o mistério insondável de Deus, é igualmente preciso preservar o enigma literário, o sem o que não há mais literatura. Se chegamos a Deus pelo terror e depois, talvez, pelo amor e pela piedade, sabemos que a catarse literária nos leva do terror à piedade para melhor outrar-nos, isto é, para melhor tornar-nos diferentes e melhores do que éramos antes da experiência. (p. 158) 

A Divindade e o Olhar

A relação entre olhar um deus e o terror me fez pensar muito na concepção que eu tinha mencionado ter sido a primeira que tive de Deus, de pai bondoso. Isso me chamou a atenção justamente por ter passado despercebido nas minhas leituras da Bíblia. Evidentemente, é uma conclusão muito clara: o molde que cada um faz de seu deus diz muito mais sobre si do que sobre a divindade. O deus dos malafaias e felicianos odeia gays mas adora dinheiro. Assim como o deus de outros é bom e caridoso. O de outros tem gosto pelo sacrifício. 

Mas a questão é que percebo que de alguma forma a gente procura nele (reforçando aquele conceito do amigo imaginário) algo que falta em nós, na vida real. Ou seja, pela ficção (ou pela religião) se busca atingir algo que não se alcança num plano mais prático. Eu que sempre tive muitas questões de identificação com o meu pai mesmo quando criança tinha essa visão de um super pai idealizado.

O Peso da Fé

A própria fé não deixa de ser um sacrifício intelectual: como é preciso crer sem evidências, quem crê sacrifica seus sentidos e sua razão. Contra a ausência de evidências, contra a lógica e contra as possibilidades, o crente aposta na existência de Deus.

Até que ponto é possível crer e não crer ao mesmo tempo? A única verdade é que eu não sei e como você disse, a fé, a crença é uma aposta no sim. Aposta essa que não posso dizer honestamente que eu faço. Sim e não seriam desonestos. Na primeira alternativa soaria artificial e na segunda pareceria querer agradar quem espera uma resposta mais “racional” de mim. Mas nenhuma realmente se aplica e essa falta de definição só se sustenta na dúvida. Eu não aposto e nem deixo de apostar. 

Nesse ponto fica claro quão fruto da minha própria conveniência eu faço a minha quase crença e quase chego a experimentar novamente minha velha amiga culpa. É a bipolaridade da minha experiência religiosa: primeiro a luz, o calor e a crença, uma solução temporária. Mais tarde, o amargo, a culpa e o estranhamento, a negação. Hoje uma flutuação, um duradouro quase. Uns dias mais perto do sim, outros na beira do não e a vida passa com os apoios necessários com a intensidade exigida.

Em tudo que conhecemos se encontra no fundo aquilo que não podemos conhecer, de sorte que o conhecimento deve ser acompanhado da consciência do desconhecimento. A verdadeira compreensão reside em assumir a contradição entre o conhecido e o desconhecido.

Assumir a contradição, no entanto, implica reconhecer o limite da razão e, por conseguinte, o primado da imaginação. Pascal afirma, na contramão do senso comum, que aquele que tenta seguir tão somente a razão é louco comprovado. (p.169)

A Hipótese Deus

 A ciência quer descartar a hipótese “Deus”, a filosoia quer matar Deus de uma vez, mas Deus retorna à face de uma e de outra no mesmo instante em que ambas se imaginam vitoriosas. É quando Vilém Flusser encontra sua resposta e, como um excepcional cético, não gosta nem um pouco da própria resposta. Ele precisa de Deus enquanto criador do mundo para poder ver o mundo. Ao mesmo tempo, sabe que “Deus é uma péssima explicação do mundo”. (p.185)

A leitura de A Ficção de Deus me trouxe uma possibilidade de dialogar, ainda que mentalmente, com essas questões e não me sentir mais tão só. Porque são questões difíceis de discutir. A maioria dos meus colegas e amigos não acredita e não gostaria de entrar nessas dúvidas que tantas vezes me consomem e resultam em falsas certezas ou em uma insegurança assustadora. Não poder ter certeza do sim me faz também querer matar Deus de uma vez. 

Mas a perspectiva de matá-lo também me assusta. Porque o vendo como minha ficção, por que Ele? Por que não qualquer outra toma seu lugar? Posso falar sobre isso, mas o pensamento que toca na real possibilidade de não haver nada após a morte me acovarda também. E o mundo e a vida se movendo arbitrariamente também. A dúvida é a única posição possível que eu encontro e me sinto mais confortável por poder assumi-la, mas parte de mim queria uma certeza. A certeza do sim. A certeza do não, que me parece mais racionalmente provável. Algo em mim não a aceita, entretanto. Talvez seja a necessidade de acreditar, talvez seja medo da solidão. Mas se não posso interromper diálogos sobre a próxima aula de linguística, o texto que precisamos pegar na xerox ou o filme que podemos ver no fim de semana para trazer um pouco do meu medo e da minha vergonha aos meus amigos de carne e osso, faço as páginas do seu livro minhas melhores amigas quando o mundo e o que se esconde além dele me falham. 

Sei que eu, dentre todas as pessoas, não vou saber, sei que não vou resolver a questão Deus, se nenhum desses grandes seres humanos que tanto se debruçaram sobre a questão o puderam fazer. Mas se lido com ela, se não abandono à obscuridade, a vida flui mais feliz. Obrigada mais uma vez, professor, por me mostrar essa terceira margem do rio.

A ideia do deus inacabado

Essa foi uma concepção inteiramente nova para mim. Eu não sabia absolutamente nada sobre os gnósticos e agora já sei mais um pouco e fiquei ansiosíssima para ler a obra de Marília Fiorillo e é claro, Kazantizákis. É fácil compreender porque a Igreja perseguiu esses grupos e ao mesmo tempo estúpido (falando de um ponto de vista meramente estratégico, sem entrar no mérito de que dizimar pessoas e acabar com a liberdade delas de crer no que querem ou podem é de um horror indizível). Digo isso, porque acredito que mesmo livre, essa ideia dificilmente prosperaria até atingir uma maioria significativa. Acredito que ficaria restrita aos cátaros. Sei que a Igreja perseguia a qualquer um que não seguisse os dogmas, mas ainda assim. Pelo simples fato que um Deus inacabado, ou seja, um Deus tão inconsequente e falho quanto os seres humanos não serve realmente de muita coisa dentro de uma mentalidade monoteísta cristã. 

Deus é a instância a quem se pode recorrer porque não é feita da mesma matéria que nós, não opera pelos mesmos caminhos e conhece e pode mais, muito mais. A ideia de um deus único mas de uma certa forma defectivo não basta, ao meu ver, para ocupar o lugar, a função de um Deus salvador. Um Deus que eu não vejo e só imagino e que como todas as coisas imaginárias, é infinito e belo por não serem certas as suas formas, os seus meios. É bom porque é só um rascunho de algo que não se concretiza materialmente. É bom porque... não existe? Ou porque só pode existir numa dimensão que não é a que eu conheço. Porque não tenho acesso a ele, um acesso que o tornaria de alguma forma finito. 

“Entretanto, se não temos acesso à divindade mesma, por definição transcendente, todo culto é em alguma medida idólatra.” (p.203)

Penso que, no geral, quem crê precisa acreditar em algo que seja maior que si e que possa proteger (ou castigar) a si e aos outros de forma que nós mesmos não podemos. Se esse deus (ou demônio desastrado) precisa de mim para compreender a si mesmo e enfim ser, de fato, a esta altura já deve estar morto.

Embora seja mais crível, talvez, um deus assim limitado e até mais lógico, por explicar muito mais do que pode o Deus absoluto, é mais fácil acreditar naquele que não responde às perguntas e fica com ares de quem sabe mais do que nós em algum lugar do imaginário humano. Um deus assim pequeno, falho e trapalhão parece simpático, interessante em uma obra de ficção e um personagem muito rico, mas não satisfaz à busca por segurança que muitos fazem na religião e o posso ver assim, como personagem de ficção, mas não como personagem da ficção maior da religião. 

Não acredito que satisfaça a necessidade suprida pela imagem do deus todo-poderoso. E o fato de poder traçar esse paralelo entre os dois e admitir que essa necessidade é minha (de acreditar em algo maior, algo além) e claro, de muitas outras pessoas, mas falo do meu ponto de vista,  demonstra quão frágil ela é. Uma ficção que se sustenta por si mesma fundada na necessidade de encontrar algo que falta na figura humana Minha quase fé ainda se sustenta como quase porque não faz sentido, é folclore, é sonho. O debate interno segue: Por que Deus? Há tantos outros símbolos a recorrer... Por isso, a meu ver, Deus é esse conflito interminável que não chega a uma síntese.

A fé tende a considerar a imperfeição do mundo uma prova da perfeição de Deus, o que é absurdo. Entretanto, a fé não se incomoda com o absurdo.” (p.194)

Narcisismo

A questão de Rudolf Otto sobre antropomorfizar Deus e com isso diminui-lo (p.205) e da adoração da ausência citada por Comte-Sponville oferece uma reflexão interessante do narcisismo humano. Há uma necessidade de transcendência, mas que fique claro que somos especiais: não só ele é espelho, mas é pai, é criador e está diretamente ligado a nós. Se precisamos de algo a admirar, alguém a recorrer, crer que existe alguém com maior controle sobre nós do que nós próprios, que ele seja isso tudo: admirável, poderoso, sábio. Mas que ainda seja, em alguma instância e de alguma maneira, muito parecido com nós mesmos. 

Então eu diria que além de adorar a ausência, é uma ausência de algo que de alguma forma já esteve aqui e esperamos que volte. Como o pai que chega no fim do dia de trabalho, cansado mas cheio de histórias. É ausente mas sabemos que de alguma maneira se parece conosco e pode compreender o que ninguém mais poderia. É um eu sem rosto e melhor do que o eu que tem. É um rosto que eu só intuo, sem nunca completar. É como o “Ai meu Deus”, que você mencionou. É uma ausência sempre momentânea, e eu chamo porque espero que retorne com o meu chamado e resolva do menor inconveniente à perda dolorosa de uma pessoa amada.

A necessidade da hipótese Deus

Algo que sempre me pareceu ininteligível na minha vida religiosa foi a leitura literal de tudo que está na Bíblia. Como já disse várias vezes, não foi o que eu aprendi em casa, mas na igreja, sempre. Quando criança, era um enigma insolúvel para mim, como Adão e Eva eram os pais de Caim e Abel e estes de repente tinham esposas! De onde vinha essa gente? Eu não conseguia entender e ninguém me explicava. Por alguma razão, nunca me ocorreu perguntar isso para quem sempre me respondia claramente, minha mãe. 

Também sempre me desesperava pelas formigas na arca. Como os insetos eram protegidos? O que todo mundo comia? Era tudo muito fantástico, tanto quanto os contos de fada. A diferença era que estes eram assumidamente ficcionais. Junto com o “Era uma vez” vinha um acordo tácito de que tudo que seria dito a seguir acontecia num território de faz de conta. E isso era maravilhoso. Mas ao precisar compreender a Bíblia como algo literal, me era exigido mais do que eu podia dar. 

Esses são apenas alguns exemplos. As parábolas contadas por Cristo são vistas como histórias. O fato de serem por ele narradas e claramente indicadas como ficcionais funciona como o “Era uma vez...” da minha Branca de Neve. Um pouco mais velha, comecei a me interessar por mitologia grega através de alguns livros da nossa biblioteca. Tudo aquilo era lido como puramente alegórico (claro que eu não tinha ideia do que era alegórico na época) e eu não tinha um dever de acreditar nos feitos daqueles deuses como relatos quase jornalísticos, pois não se afirmava que expressavam nada menos que A Verdade. Era uma tortura tentar entender como aquilo tudo era possível. Quanto à mitologia grega, em oposição à judaico-cristã, por exemplo, foi-se o aspecto religioso, ficou só a ficção (própria, é claro, da religião, mas despida de todo o ritual associado). 

Você menciona que judeus e cristãos não negam que a Bíblia possa ser apreciada sem blasfêmia de maneira secular (p.217). Não todos, nem sempre. Muitos simplesmente não aceitam essa visão. Digo isso dentro da minha própria experiência. Seria ótimo que a visão literária da Bíblia tivesse sido mais aceita nos lugares que frequentei, mas o fato é que as alegorias cristãs me torturavam enquanto criança porque pareciam ser feitas da mesma matéria que os contos de fada e livros de ficção mas me eram afirmadas e reafirmadas como retratos do real. O porquê de tentar fazer da religião ciência, como você mencionou (p.207-209), talvez tenha raízes nessa tentativa de ressuscitar e fortalecer a hipótese Deus, obtendo o efeito inverso. 

O enigma é muito mais interessante, a dúvida traz reflexão e opera mudanças. A leitura literal, dois mais dois, só parece estranha e vaga, como um manual de regras que ninguém sabe exatamente porque segue. A dúvida, entretanto, é um risco para quem deseja contenção, controle. Justamente por essa característica de mudança, de ideias flutuantes. A reflexão individual obrigatoriamente levará a conclusões diversas. Mas essa é uma propriedade da ficção, e deveria ser da religião também, por extensão. Acredito que seja essa uma das causas do meu afastamento, além de todas que já mencionei. Não queria mais ninguém dizendo de que cores pintar o meu ideal do que seria Deus. Descobri que tinha aquarela e pincel nas mãos e uma tela em branco esperando pela minha decisão, minhas hesitações e receios. Se deus é ficção, quero que ele seja tão meu quanto meus personagens favoritos e não quero nenhuma “voz autorizada” que me diga a forma certa de concebê-lo. Nossa experiência com leituras literais (e unificadas pelo interesse de determinada instituição) está imersa em um mar de sangue e desencontro. 

Pesquisa

Reitero a enorme relevância da sua obra por ser fruto de uma extensa pesquisa que reúne, expõe e explica visões diversas e fundamenta argumentos que não necessariamente refletem a sua própria crença ou ausência dela. A citação da obra Pimentas de Rubem Alves, tão pertinente (e como sempre, me fez encomendar o livro!), enriquece “A ficção de Deus” por expor a interpretação de um teólogo que faz uma leitura belíssima dos “sonhos da alma humana” e dos “poemas da Criação”. Sinto frequentemente um desânimo imenso de participar de conversas ligadas a religião porque sei que a maioria dos meus colegas tem uma visão estigmatizada de crentes, especialmente evangélicos. 

Não os culpo. Isso é devido à imagem intolerante propagada não só pelos pastores televisivos já mencionados, mas por pessoas do convívio deles que ecoam esse tipo de discurso. Não se tem muita chance de argumentar que essas pessoas não representam a visão de mundo de todo aquele que crê. Que intolerância não é a bandeira de pessoas como Rubem Alves. Um teólogo que classifica como ridícula qualquer tentativa de leitura literal, científica da Bíblia. Um homem que, pelo contrário, a lê poeticamente e é a antítese pra qualquer Feliciano, pra qualquer vizinho preconceituoso. De agora em diante, ele passa a ser um argumento maravilhoso nesse tipo de discussão. Muito obrigada (pela milionésima vez).

“A Bíblia não é considerada o Livro dos Livros à toa: todas as histórias, das mais sublimes às mais violentas, das mais belas às mais terríveis, já estão ali. De certo modo, os escritores do Ocidente se sucedem um ao outro no esforço hercúleo de reescrever a Bíblia.” (p. 217)

Essa colocação me lembrou muitíssimo um texto de Jorge Luis Borges (mais uma vez!) intitulado “O narrar uma história”, publicado no livro “Esse Ofício do Verso”. Sei que você conhece o texto, mas vou mencionar assim mesmo: neste ele defende a existência de três “poemas” que definem a humanidade, sendo o primeiro a Odisseia, o segundo a Ilíada e o terceiro os quatro evangelhos. Diz que o homem, na verdade, não precisa de muitas histórias e que o oceano de enredos na literatura moderna não passa de repetição desses três poemas, recontados de uma forma ou de outra. É um exercício interessante tentar encontrar esses traços em obras improváveis.

Nas minhas humildes palavras, Deus se apresenta como o Desconhecido que deve permanecer desconhecido, justamente para emprestar sentido a cada coisa e a cada ser que se possa conhecer. Por isso, não se deve pronunciar o nome de Deus. Por isso, a Bíblia chama Deus por cerca de 52 nomes diferentes, todos de alguma forma metáforas de outro nome, aquele que não se pode pronunciar. A própria Bíblia reforça a noção de Deus como a de uma metáfora múltipla.” (p.220)

Repetindo o efeito costumeiro, sua análise da Bíblia me faz querer relê-la por inteiro para que possa redescobri-la sob olhares (para mim) revolucionários descobertos enquanto lendo A Ficção de Deus. Quero reler a Bíblia como leitora: como leitora de literatura. A ideia da religião como irmã da ficção, como originalmente metaficcional e da criação do homem como a necessidade de Deus ter um espelho de si para existir. Um espelho tão vivo que reflexo toma papel de criador original ao tornar este o seu reflexo criando a religião, a ficção de deus, deus na ficção. E como em imagens realmente refletidas, é impossível dizer qual replica a imagem e ação da outra. Se deus criou o homem para existir, o homem cria deus todos os dias não só através da sua existência que reflete esse criador, mas pelo próprio ofício criativo, retomando a arte original: se fazer existir no outro.

O Jardim do Éden foi largado para trás e hoje provavelmente se encontra tomado pelas ervas daninhas ou transformado em um deserto.” (p.224)

A sua explicação da serpente como ato falho de Deus não só me fez pensar nas suas aulas onde falou sobre o ato falho, mas desejar uma aula onde abordasse esse enfoque! Eu sempre pensei a serpente de duas formas – as óbvias – como representação do mal e como símbolo de tudo de que existe de dúbio e atraente no ser humano. Nunca como uma lacuna no sistema do próprio Deus, uma projeção do seu inconsciente e o Éden (e seus habitantes) como extensões de um criador absolutamente caótico e conflitado.

Ainda nesta questão do professor, tratada brilhantemente em obras como “Conversas com um professor de literatura” e “Redação Inquieta”, gostei muito da ponte da leitura literal da ficção – seja de deus ou não – e o trabalho em sala de aula que definitivamente vai marcar a forma como uma boa parcela dos alunos vai se relacionar com a literatura da experiência escolar em diante.

A segunda razão de preocupação é que esses estudantes que não sabem ler literatura como literatura se tornam professores que levam seus alunos a odiarem justamente aquilo que tentam ensinar. Inconscientes de que têm medo do imaginário e da ficção, mas conscientes de que precisam “dar” matéria e “ocupar” seus alunos com muitas tarefas e testes, transformam o espanto promovido pela literatura no tédio garantido pela periodização histórica e pelas extensamente inúteis listas de características dos estilos de todas as épocas.”

É sempre bom lembrar de que precisamos desesperadamente de uma revisão do que é ensinar literatura na escola. Chega de listas impessoais e desprovidas de qualquer possibilidade de criação de elo entre aluno e obras. Não adianta dizer aos alunos que devem ler Machado de Assis só porque eles devem. Ou que Clarice Lispector é muito boa porque todo mundo diz assim e porque a internet está repleta de frases erroneamente atribuídas a ela. Que a literatura na escola seja literatura de fato e não uma linha do tempo.

É curioso que outro dia escutei um colega de Letras se queixar que a aula de Teoria da Literatura deveria ser mais... teórica. Ele dizia que achava errado que o professor trabalhasse tantos textos ficcionais e dizia que não entendia porque a matéria se chamava Teoria. Eu imediatamente me lembrei da sua concepção de Teoria na Literatura e mencionei, defendendo que não faria muito sentido que nós sentássemos numa sala de aula em pleno 2014 e nos puséssemos a analisar a Poética de Aristóteles, por exemplo, sem nenhuma observação prática de como aqueles conceitos se aplicam em obras reais. Seria, novamente, decorar uma lista de nomes e descrições. Seria, finalmente, uma concepção estúpida de Teoria da (ou na) Literatura. 

Acredito que a forma como estamos trabalhando atualmente seja a melhor possível neste momento. Analisar os textos, trabalhar com alguns conceitos que podem ser observados na obra em si. Um mero semestre de teoria sem literatura seria uma desventura muito infeliz. Sinto saudades do meu professor toda vez que entro na sala 54, mas me reconciliei com a ideia de que não posso reclamar de como as coisas são feitas agora simplesmente porque... percebi que até que gosto delas. O que seria uma avaliação por semana foi convertido pelo professor em um trabalho por semana sobre um texto que ele trabalhou na semana anterior. Eu gosto de escrever, então tem sido ótimo (para mim, pelo menos). Percebi que não posso implicar com um professor pelo simples fato dele não ser você, seria injusto e egoísta da minha parte e uma exigência impossível. As disciplinas ligadas a Literatura seguem sendo minhas favoritas, Teoria a primeira. Mas muito bem, retomando as questões do livro. 

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Adorei a referência ao camponês de “O sentido trágico da vida” (p.226). A questão que ele levante pode soar simplista demais, entretanto não me parece inválida de forma alguma. Se Deus existe para suprir necessidades transcendentais (seja como ficção, seja de outra forma mais “real”), qual é a vantagem de acreditar num mágico que sei ser ilusionista?  

“Deus é o maior de todos os Deus ex machina, se o inventamos para cobrir nossos buracos, nossas faltas e nossos abismos.”  (p.242)

Quero dizer, não queremos ser apagados. Ligado à vontade de acreditar n’Ele está um anseio por mais poesia na nossa passagem pela vida, que esta não seja tão somente viver alguns tantos anos, aprender algumas coisas, ser feliz, ser triste, um pouco de êxtase, um outro tanto de tédio e ócio. Aproveitar e sofrer. E tudo juraria que não há transcendência para além do último suspiro. Deus é uma brecha no contrato. Se mesmo a brecha não garante um lugar na eternidade, que tipo de brecha é essa? É claro que todos aqueles estudiosos incríveis que você citou no livro criticariam minha visão egoísta, minha tentativa brusca e extrema de tentar domesticar a ideia de Deus sob meus próprios propósitos, de avaliá-lo pela minha medida. Mas por mais que tente me isentar ao máximo desta, não é ela que no fim me permite acreditar ou não? Se não preciso desse Deus, qual é o propósito? Ao mesmo tempo que ele pode ser uma analogia do infinito, do que está além, não parece tão além se pode se encaixar muito bem em tudo que eu já sei que existe de prático no universo.

A Equação Literária

“Para culminar, Jesus não ameaça seus algozes caso destruam o templo que é ele mesmo, antes ele os desafia: “destruam este templo”. Pergunta Miles, espantado: trata-se de ‘um cordeiro que escarnece do açougueiro?’. Segundo o jesuíta, ‘Jesus é um messias irônico, ‘irreal’, um messias sim-e-não.’ Ora, ironia + compossibilidade dos contrários = ficção. A equação é literária, lembrando bem a formulação que pus poucas linhas atrás na boca etérea de Deus: ‘eu sou aquele que não é e ao mesmo tempo aquele que é, logo, eu sou aquele que será para sempre’. Jesus Cristo também é e não é e então será para sempre, ou seja: Jesus Cristo é um personagem tão bom quanto o seu pai, exatamente porque imprevisível e paradoxal, tão paradoxal que permite a coexistência do sim e do não, como de resto faz a melhor ficção.”

Num dos melhores trechos do livro, uma excelente demonstração da ficção de Deus no sentido de Deus como personagem de ficção. São colocados, em termos literários, os pontos que tornam Deus, ou Cristo, personagens tão atraentes. É uma análise interessante deles como personagens riquíssimos, mas personagens. Tais como Dom Quixote, tais como Macbeth. Personagens que sobrevivem ao tempo, que suprem necessidades humanas em qualquer época, porque não falam do mundo, da época, falam de nós. Falam da condição humana. No caso de Deus, é claro, um personagem levado à ultima instância, a religião. Esta, como você explorou no livro, intimamente ligada à arte e à ficção em si. 

Quando criança, Toy Story me consolava por me permitir acreditar que meus brinquedos, na realidade, eram indivíduos complexos com vidas secretas, não apenas pedaços de plástico modelados. Harry Potter me levou a acreditar que eu tinha uma razão pra ser ‘diferente’ e que tão logo completasse 11 anos uma carta chegaria me convidando a unir-me aos meus. Da mesma forma, mais tarde troquei essas referências por Lou Reed e David Bowie, assim como Patti Smith conta que aos 16 o único homem para ela era Rimbaud. 

Entendo que minha relação com a crença, ou pelo menos a dúvida sobre Deus venha dessa mesma natureza que precisa de algo além, de alguma coisa que de alguma forma só eu posso ver. Essa relação é algo difícil de ser compartilhado. Tenho uma dificuldade enorme de aproveitar shows de bandas que eu gosto quando vêm ao Brasil. É sempre alvoroço demais, gritos demais, gente demais. E de alguma forma aquele espaço que ocupo parece banal. Sempre compro o ingresso, muitas vezes desisto, mas quando vou quase sempre me arrependo. 

Talvez tenha um pouco a ver com uma dificuldade de lidar com o concreto após ter vivenciado o imaginário. Por melhor que qualquer experiência seja, nunca alcançará o patamar da expectativa, do que foi milhares de vezes imaginado e aperfeiçoado mentalmente. Ao enxergar Deus como personagem de ficção, o vejo também como meu primeiro amigo imaginário, minha primeira companhia de criança inquieta e solitária.

Pensando Jesus Cristo como um personagem, a colocação de Miles dele como um messias irônico, irreal, sim-e-não, é muito curiosa a representação dele que a Igreja Católica conseguiu criar e manter. Há poucos dias comecei a assistir uma série do Showtime (uma produção fantástica e que infelizmente se encerrou no ano passado) chamada ‘The Borgias’. Retrata a ascensão de Rodrigo Borgia e sua transformação em Papa Alexandre VI. Comecei a ler mais sobre a família e ao ver um retrato de Cesare Borgia pensei que ele se assemelhava muito com a representação “padrão” de Cristo. E de fato, ao pesquisar a respeito, descobri uma teoria que afirma que a representação de Cristo é que se assemelha a ele, já que ele foi usado como modelo para a criação desta. A imagem europeizada do Cristo teria se estabelecido à semelhança de uma das figuras mais controversas do século XV, elogiada por Maquiavel como a representação perfeita de seu Príncipe. 

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A imagem da vida como um filme é bastante comum a partir do século XX, embora inverta a mimese tradicional: filmes é que deveriam se parecer com a vida e não o contrário. Essa inversão reforça as suspeitas que sempre tivemos, embora as recalquemos, sobre a realidade da realidade. Até que ponto vivemos e até que ponto reproduzimos e imitamos o que lemos nos livros e vemos no filmes? Até que ponto representamos personagens, um depois do outro e um sobre o outro, para fingirmos que somos alguém e não ninguém, que a vida é alguma coisa e não nada? (p.238)

Isso me fez pensar na ficção das próprias relações que mantemos uns com os outros. Inevitavelmente, qualquer que seja a natureza do relacionamento, este trará uma carga ficcional. Por mais que se conheça o outro, em certo grau a pessoa se relaciona com a imagem projetada do que este significa para si. Ao menos é o que percebo pela experiência (não tão longa, admito) e observação. 

Tenho um exemplo muito simples. Outro dia surpreendi uma amiga durante o jantar na UERJ ao indicar um garoto que havia me chamado a atenção, que encontro com certa frequência por ali e que cursa Educação Física. Ela ficou genuinamente surpresa e disse que não imaginava que eu me interessaria por alguém assim. Mas logo em seguida adicionou que não via nada de realmente estranho, apenas havia se surpreendido num primeiro momento. Também eu me surpreendo com coisas que ela me conta sobre si que seriam inverossímeis dentro da imagem simbólica que construí dela. Sendo assim, acredito que num determinado grau, nossa relação tem uma forte base ficcional. O que ainda não sei sobre ela, completo com suposições e projeções baseadas no que já sei. Definir essa relação como ficcional até certo grau não significa que não seja sincera ou “real”. Ela inclusive está se tornando genuinamente uma das minhas pessoas favoritas no universo. Acredito que essa percepção apenas reforça o conceito da fusão entre ideais de real e fictício.

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Outro ponto muito feliz do livro para mim foram as referências a Saramago.

Poderia ficar horas comentando, mas me limitarei a duas declarações:

Deus é uma criação humana e, como muitas outras criações humanas, a certa altura toma o freio nos dentes e passa a condicionar os seres que criaram essa ideia.”

E quando ele se reconhece como “um ateu produzido pelo cristianismo”.

É uma colocação fantástica. Penso que a maior parte dos ateus é de fato produzida pelo cristianismo. Sem a agressividade do cristianismo esta provavelmente nem seria uma questão tão forte. A experiência negativa com a religião produz a necessidade de renegá-la e com isso produzir a própria certeza da não-existência de algo que não se pode provar nem que sim nem que não. Tudo que podemos fazer é elaborar teorias, tentar demonstrar um ponto ou outro, mas, de fato, provar é inconcebível. Quando penso na minha própria experiência religiosa, como já mencionei, esta me levou a desacreditar inteiramente. Passados alguns anos da minha mágoa em relação à instituição como um todo, continuo querendo distância desta, mas já não tenho certezas. “Só sei que nada sei”.

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Pensei muito sobre a constatação de Nancy Huston de que quando desaparecermos ‘nenhuma lágrima será derramada sobre a nossa ausência, nenhuma conclusão será tirada sobre o significado da nossa breve passagem pelo planeta Terra: esse significado terminará conosco’. (p.314)

É interessante que ainda que lágrimas sejam derramadas, ainda que sejamos lembrados em maior ou menor escala, essa memória de nada nos servirá e não corresponderá de forma alguma à existência que experienciamos aqui. John Lennon é lembrado, Newton é lembrado. Jesus Cristo é lembrado, assim como seus apóstolos. Mas o que se tem são ficções, são pequenos esboços do que foram essas pessoas. Nossa existência de fato se extingue com a vida em si. O que fica são impressões (fotografias, vídeos, gravações, cartas, objetos e criações) e as tais projeções de que falei. Seja como for, temos um prazo muito curto de duração. A certeza de que estamos cada dia mais próximos do limite (sem saber o quanto) gera uma angústia insaciável de viver, de saber como melhor aproveitar o tempo, se aventurar ou se preservar. Como saber se devo fazer tudo por que meu tempo logo se esgotará e eu também ou se devo, justamente porque tudo está fadado a terminar rapidamente, viver mais devagar? Deus não existe em outro lugar fora das cabeças humanas (p.314) assim como tudo que criamos para, em algum nível, justificar o ar que respiramos. 

Se perdesse a memória hoje, esquecesse absolutamente toda a minha história e meu próprio nome, tampouco me contariam quem eu sou o meu reflexo no espelho e minha carteira de identidade. Estabeleço minha existência através do tempo, das escolhas, das histórias que conto a mim mesma sobre essa existência. Ou seja, sou ficção de mim mesma. Se vier a esquecer essas histórias que me conto todos os dias para acreditar na minha própria identidade, a ilusão de que tal identidade existe se esvai por entre meus dedos. E ainda que outra pessoa me conte, se eu não conseguir lembrar por mim mesma, não serei capaz de recordar. Porque será uma versão projetada, um reflexo, um vulto do que penso ser aos olhos de outra pessoa.

Isso me lembra do filme “The Disappearance of Eleanor Rigby”, lançado recentemente. Ele é dividido em três partes: Him, Her e Them. Them foi lançado em Cannes antes dos dois outros. Esta seria uma versão “panorâmica”, sem seguir o ponto de vista nem de um nem de outro. Him/Her foram lançados juntos. Na primeira parte do filme, a história do casal é contada pelo ponto de vista dele. Ou seja, Eleanor (Jessica Chastain) é apresentada ao público através das projeções que Connor (James McAvoy) faz dela. Na segunda parte acontece o inverso. E de fato, acredito que toda história, sobretudo toda história de amor, contenha pelo menos duas versões, dois universos.

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E por fim...

 “Sean não acredita em Deus mas acredita em Patchouli, isto é, no personagem que criou para poder acreditar. Eu não acredito em Deus mas acredito em Sean, em Patchouli e sim, no Deus-Narrador de Nancy Houston.” (p.322)

Este é mais um trecho que eu jamais poderia deixar de mencionar. Eu adicionaria que acredito em Pedro(s), Lúcia(s), Nina e na Lívia. (e é claro, em amáveis ursos polares!)

Epílogo do Epílogo

Maravilhosa a análise de A Terceira Margem do Rio, que jamais poderia faltar. É claro que me lembra suas aulas e do dia em que pediu que resumíssemos o conto em uma palavra ou frase. Em uma ideia. E me parecia impossível, aquilo me atormentou terrivelmente, minha incapacidade de sintetizar o que pensava. Quando você perguntou na aula seguinte sobre as frases, estava decidida a não dizer nada. Mas quando uma colega deu uma resposta curta e prática, explodi num ataque verborrágico, lembro que disse muitas coisas sobre minha interpretação de que o conto seria uma alegoria da morte de um pai querido cuja perda era impossível, inverossímil, inaceitável para a família. 

Eu me senti a pessoa mais ridícula do universo, mas você sorriu e disse que essa era uma interpretação plenamente possível, eu só tinha usado muitas frases para descrevê-la. Lembro que como você falou sobre a importância do número 3 e comentou justamente sobre o caráter original, quiçá subversivo (parafraseando aqui trecho da página 329) do conto, do pai que não manda o filho carregar a cruz por ele. Tenho certeza que essa aula estará tão viva na minha memória daqui a 30 anos quanto está agora (e digitando essas lembranças sorrio me lembrando daquela aula e sou transportada para 2014.1). 

“Só assim posso escutar novamente o som belíssimo, antiquíssimo e altíssimo dos sinos da catedral gótica de Freiburg, quando levo outra vez as mãos aos ouvidos e as lágrimas aos olhos, quando súbito me sinto transportado séculos para trás e, ao mesmo tempo, para dentro do mundo tão melhor da minha imaginação.” (p.340)

Por fim, posso dizer que também eu acredito antes em quem acredita, seja na dúvida, na possibilidade, no sonho e na ficção. Acredito em quem me mostra a cada nova leitura o quão importante é perceber que certezas demais não são sinal de força, mas de insegurança. Quem me mostra cada vez mais o quão tênue é essa linha de realidade e ficção e quantos elementos elas trocam entre si. A Ficção de Deus é um livro para ser sempre relido (nesse processo de escrever sobre a obra a reli 3 vezes). 

Eu, que nunca tive realmente muita certeza de nada e volta e meia me pergunto que diabos estou fazendo, paro e começo tudo de novo, me sinto aliviada e extremamente feliz ao ler seus livros e A Ficção de Deus veio para reafirmar isso, mostrar um oceano de possibilidades de compreensão, análises e novas análises. É libertador não precisar ter certeza o tempo todo. Pretendo agora continuar minhas leituras bernardianas e já iniciei “Verdades Quixotescas”. Enquanto isso, procuro assistir aos poucos os filmes e ler os livros da bibliografia! 

Obrigada como sempre e até logo!

Rio de Janeiro, novembro de 2014.

e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com