A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


A Ficção de Deus
     

A FICÇÃO DE DEUS

Victor Marques de Araujo



Estar no mundo é suscitar questões simples, de poucas palavras. Contudo, parece que a busca por respostas pode levar uma vida. Afinal, Deus existe ou é coisa inventada? Muitos fizeram essa pergunta e não conseguiram respondê-la. Outros, conseguiram. Não é possível tratar com méritos aqueles que conseguiram em detrimento daqueles que não conseguem uma resposta crível e sólida para tal pergunta. Porém, cabe à obra A Ficção de Deus o perfeito papel de fomentadora, de catalizadora, ao ponto de incitar o pensamento e pôr, como protagonista, no palco do pensamento do leitor, tal pergunta sempre atual.

A obra é dividida em três atos – dúvida, conhecimento e ficções – e desenvolve a linha de exposição através de uma proposta intertextual que, de maneira rica, propõe ao leitor uma viagem numa leitura madura e com um escopo argumentativo forte, construído sobre uma base plural de opiniões, concordâncias e divergências: “A ficção de Deus é a forma poética condensada que corresponde às quatro perguntas fundamentais: de onde viemos, para onde vamos quem somos e o que raios estamos fazendo aqui” (BERNARDO, 2014, p.53).

No primeiro ato, a dúvida, coloca-se no centro da discussão o estado legítimo de duvidar, questionar uma verdade tida como absoluta, e que, na maioria dos grupos sociais, é imposta como um dogma passível da não existência social, passível da invisibilidade. Por medo ou por convenção social, grande parte da sociedade, por mais que nunca tenha visto ou tocado o grande arquiteto do universo, e apesar de dúvidas, diz-se crente, assumindo Deus papel central na vida dessa grande parte da população. Através da costura de uma estrutura que é alinhavada com o primor de um autor comprometido com a questão crucial da obra, a Literatura se apresenta como a ciência que norteia a criação do fundamento do nascimento da religião e de Deus, este sendo, por esta ótica, uma obra de ficção quase que perfeita, feita à sua imagem e semelhança.

Os deuses que animaram as dúvidas do homem de outrora morreram e novos deuses surgiram, até chegarmos ao onipotente Deus da contemporaneidade. A passagem do politeísmo para o monoteísmo bíblico fez com que a unidade do discurso fosse personificada de maneira a ser mais arrebatadora e eficaz na fixação de uma moral única a todos os crentes. Contudo, como grande parte da ficção criada pelo homem, aquela também não ficaria livre de contradição:

Volto à tensão entre o monoteísmo e o politeísmo, tomando partido do segundo. Sou bastante simpático à possibilidade da existência de seres superiores, logo, de seres a que podemos chamar de deuses, no plural: o universo não fica muito bem na fita se nós formos os seres “mais” superiores do universo. Como tudo no mundo é múltiplo e relativo a outra coisa que então o define, não vejo sentido na possibilidade da existência de um único ser superior a todos os demais, assim como não vejo sentido na possibilidade de um criador único do universo. (BERNARDO, 2014, p.49)

O homem e sua relação com o transcendental acontece seja por meio de metáforas, seja através de ritos mágicos. Mesmo assim, ainda hoje, não se chega a um denominador comum quando o assunto é a existência de Deus. De maneira instigante e provocativa, a obra submete o leitor a perceber o quanto um possível paradigma evolucionista ainda influencia os teóricos e pesquisadores do tema na busca por uma resposta universal à esta pergunta universal.
 
Ainda assim, com maestria, termina-se a leitura do capítulo com uma dúvida de caráter normativo: seria Deus um substantivo concreto ou abstrato? Deveríamos escrever seu nome com inicial maiúscula ou minúscula? Ou, abster-se da questão escolhendo outra, concebendo-se no papel de ateu feroz ou suave?

No segundo ato, é possível ter contato, como em todos os capítulos do livro, de forma intertextual, com o conceito de catarse. Para introduzir tal conceito, nos é mostrado que a dor serve como expiação para uma redenção humana, na medida em que, através da experiência da dor, o homem é capaz de enxergar-se como um ser melhor, dotado de bondade e humanidade. Sendo assim, ao derramar lágrimas, o homem toma consciência de sua finitude, o que abranda sua agressividade e o faz sentir a presença da divindade.

Assim, o choro é uma espécie de libertação onde é permitido despir-se das máscaras impostas pelo meio social em que se vive e expurgar o mal para fora através das lágrimas. Nada melhor do que a arte para emocionar e impulsionar a expurgação de sentimentos que se encontram mascarados no íntimo do homem. De Aristóteles à Clarice Lispector, o conceito de catarse é explorado de forma que, como observa o autor, o leitor assume o papel de identificação total com determinados personagens, pois estabelece com eles uma espécie de simbiose que permite aos personagens o “sofrer por eles”, leitores, e, assim, em paralelo, permitir aos leitores, através “deles” – personagens –, tornarem-se mais completos:

O processo que permite que as minhas emoções reprimidas e recalcadas encontrem um canal simbólico para escaparem, deixando-me com a agradável sensação de que algo se soltou aqui dentro, de que consegui pôr para fora o que me oprimia e incomodava, embora eu não soubesse muito bem o que era esse algo. Ora, quando as minhas emoções reprimidas e recalcadas conseguem sair de mim, torna-se mais fácil que eu mesmo consiga escapar da armadilha do meu ego e me permita ver o outro, que seja para me apiedar dele. Nasce assim a religião no que ela tem de melhor. (BERNARDO, 2014 p.124)

Neste sentido, com a relação de empréstimo da identidade entre leitor e personagem, para uma evolução do ser humano através das lágrimas derramadas, poderíamos encarar Deus como o personagem central da vida de milhares de pessoas que, em uma espécie de “contrato de identificação”, praticam sua fé através do personagem maior, chorando, sorrindo e sentindo-se melhores a cada dia. Da catarse nasce a epifania e, dela, nasce a revelação de Deus. (BERNARDO, 2014, p.132)

No seu terceiro e último ato, o livro mergulha literalmente nos rios da ficção e apresenta a magnitude da criação literária presente na Bíblia, ao ponto de muitos escritores terem-na como plano de fundo de seus romances, uma atitude que não se revela uma leitura descompromissada. Assim, neste ato, a ficção mais uma vez é remontada sob um processo intertextual que se dirige, em diversas obras, à revelação de que a bíblia está presente coercitivamente em nossa maneira de enxergar o mundo. Deus é narrador e personagem principal na bíblia e, seus leitores, através da bíblia e das suas releituras textuais e romanceadas em outras obras, experimentam Deus e a si própria na e a partir da relação com aquele personagem maior.

A Ficção de Deus revela ao leitor uma centelha de dúvida, um indício de questionamento. A obra cumpre seu papel de ficcionalizar o impossível para um leitor mais crente. Ao “ateu feroz e suave”, a obra soma-se aos argumentos que defendem Deus como um ser inventado para criar uma resposta palatável para o finitude da humanidade. Com estas características, A Ficção de Deus assume um papel vigoroso como daquelas obras que nascem para provocar e renovar a crença em suas convicções, sejam elas quais forem.



ContraCorrente: revista de estudos literários e da cultura; agosto de 2016

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