A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO



Gustavo Bernardo
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Nasci no meio do século passado, na cidade do Rio de Janeiro, como o mais velho de quatro irmãos – e a nossa mãe queria só uma menina.

Quando aprendi a ler, queria entrar dentro dos livros e me tornar personagem. Como isso não é possível, resolvi que ia ser escritor.

No caminho, porém, quase me tornei engenheiro, como meu pai. Por sorte, minha e da engenharia nacional, mudei de ideia na hora H, e com o apoio decisivo de H – isto é, de Hayrton, meu pai. Fiz Letras e me tornei professor.

Todavia, nunca deixei de escrever e de tentar publicar o que escrevia, enchendo o saco de muitos editores. Depois de colecionar algumas cartas de recusa e muitos silêncios mortais, aos poucos fui publicando os meus romances e os meus ensaios.

No entanto, ainda não me apresento como escritor. A cada livro, o leitor é que decide se eu sou escritor. Eu ainda não sei. Considerando a minha idade, acho que nunca vou saber se consegui o que tanto desejo desde criança.

Na verdade, sempre me apresento, às pessoas e aos formulários de hotel, como “professor”. Dou aulas há 43 anos, e com orgulho. Equilibro-me nesta profissão, tão estimulante quanto desgastante, escrevendo ensaios sobre os temas preferidos das minhas aulas.

Hoje, sou Professor Associado e Diretor do Departamento de Seleção Acadêmica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Cometi um livro de poemas: Pálpebra (1975). O verbo é correto, os poemas não eram lá essas coisas.

Desde então, agarrei-me na prosa e publiquei 11 romances: Pedro Pedra (1982); Me nina (1989); Lúcia (1999); A alma do urso (1999); Desenho mudo (2002); O mágico de verdade (2006); Reviravolta (2007); A filha do escritor (2008); Monte Verità (2009); O gosto do apfelstrudel (2010); Nanook (2016).

Modéstia e insegurança à parte, acho todos eles, desde o primeiro, Pedro Pedra, quase muito bons. Mas a minha opinião é ligeiramente suspeita.

Publiquei 12 ensaios: Redação inquieta (1985); Quem pode julgar a primeira pedra? (1993); Cola sombra da escola (1997); Educação pelo argumento (2000); A dúvida de Flusser (2002); A ficção cética (2004); Verdades quixotescas (2006); Vilém Flusser: uma introdução (2008, com Anke Finger e Rainer Guldin); O livro da metaficção (2010); O problema do realismo de Machado de Assis (2011); Conversas com um professor de literatura (2013); A ficção de Deus (2014).

A respeito desses ensaios, mudo de lugar o "quase" e digo que acho quase todos eles muito bons (não me empolgo com o segundo, fruto da minha dissertação de mestrado). Creio que atendo ao duplo princípio do escritor:
da clareza como obrigação, do humor como gentileza.

Ainda organizei e editei 9 coletâneas de artigos: Literatura e sistemas culturais (1998); Vilém Flusser no Brasil (2000, com Ricardo Mendes); As margens da tradução (2002); José de Alencar (2002); Literatura e ceticismo (2005); Contos de amor e ciúme de Machado de Assis (2008); Machado de Assis e a escravidão (2010, com Markus Schäffauer e Joachim Michael); A filosofia da ficção de Vilém Flusser (2011); Comoções literárias (2014).

Alguém aí contou 33 livros? Bom número – mas ainda não parei de escrever.

Idealizo um romance com o protagonista preso dentro de suas próprias memórias. Como é que eu vou fazer isso? Ainda não sei...

Acabo de compor (a quatro mãos e com um oceano no meio), com o meu irmão suíço, o professor Rainer Guldin, a biografia do filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser, por enquanto intitulada: O homem sem chão. Pretendemos publicá-la ao mesmo tempo em português e em alemão.

Desdobrando A ficção de Deus, começo a esboçar um ensaio sobre metamorfoses, entendendo-as símbolos perfeitos da secular batalha entre a literatura e a religião. Já tenho até a epígrafe, que me serve também para fechar esta apresentação: o trecho de uma carta de Franz Kafka a Milena Jesenská, por volta de 1920. No trecho, Kafka conta a Milena que:



Ontem sonhei com você. Já quase não me lembro dos pormenores, só sei que nos transformávamos continuamente um no outro, eu era você, você era eu. Finalmente, não sei como, você pegou fogo, lembrei-me que é possível apagar o fogo com panos e assim bati em você com um velho paletó. Mas as metamorfoses recomeçaram e de repente você desaparecia, era eu que ardia e também eu que batia com o paletó. Mas de nada adiantava, só confirmava meu velho temor de que esses métodos nada podem contra o fogo. No entretempo chegaram os bombeiros e de algum modo você foi salva. Mas agora você era diferente, fantasmagórica, como se desenhada a giz no escuro, e caiu-me nos braços sem vida, ou talvez tenha apenas desmaiado de alegria por ter sido salva. Mas ainda aqui atuava a incerteza da transformação, talvez eu mesmo tenha caído nos braços de alguém.


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com